O Admirável Mundo Novo é aqui, ou melhor, ali no próximo post

Quarta-feira, 12 de novembro de 2014 é uma data que vai ficar registrada na história da humanidade.

Foi o dia em que a Kim Kardashian quebrou a internet, ou quase isso, devido ao burburinho criado pela capa (dupla) da revista Nova Iorquina Paper.

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A Paper chamou o fotógrafo Jean-Paul Goude, um dos mais conceituados no mundo da moda para registrar “a bunda” da Kim Kardashian  e “quebrar a internet”, como diz a revista, devido ao burburinho que seria causado por essa foto.

A Kim Kardashian é uma personalidade que gosta de exibir a sua vida para os meios de comunicação, e sabe fazer isso muito bem, tanto que  se transformou numa socialite, personalidade das redes sociais, empresária, atriz e esposa do rapper americano Kayne West.

O evento foi amplamente discutido na internet, principalmente nas redes sociais, e acabou gerando vários memes sobre o assunto (procure pelo termo #breaktheinternet no twitter e veja as imagens, ou então clique aqui).

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Nada contra a Kim Kardashian, mas acreditamos que o que deveria ter quebrado a internet nesse dia deveria ter sido a jornada empreendida pelo Módulo Philae, liberado pela sonda Rosetta, que pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, distante 510 milhões de km da terra.

Trata-se de um marco na história da humanidade (link para saber mais), falamos aqui de uma sonda que foi lançada há dez anos, com tecnologia de 20 anos atrás, e que custou R$ 4,45 bilhões.

Tirando toda a tecnologia envolvida no processo, a união de diferentes áreas de conhecimento, os complicados cálculos da engenharia espacial e outros procedimentos envolvidos no processo, essa foi a primeira vez que um objeto construído pelo homem conseguiu pousar num cometa. Tem-se aqui mais um marco na história da exploração espacial.

https://soundcloud.com/esaops/a-singing-comet

Acreditamos que a Bunda da Kim Kardashian possa ser suplantada semana que vem, por outra parte do corpo exposta por mais uma personalidade presente na mídia numa foto mais “ousada”. Mas o módulo Philae e o pouso num cometa é um evento que abre toda uma gama de possibilidades para o homem na exploração do espaço.

Estes dois eventos servem para ilustrar, e muito bem, a diferença de “futuros” pensados por dois grandes escritores, Aldous Huxley e George Orwell.

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Resumindo as duas obras, Admirável Mundo Novo fala de um futuro hipotético (o livro foi publicado em 1932), onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente (você já nasce com as características físicas para ser um operário, um pensador, um guerreiro e assim por diante) e condicionadas psicologicamente a viverem numa sociedade organizadas por castas. Trata-se uma sociedade prática, regida pelo prazer e pela constante ocupação. Qualquer inquietação ou inseguração dos cidadãos é dissipada com o consumo de drogas, sem efeitos colaterais, o conceito de família não existe e todos prezam pelo individualismo.

Já 1984 (finalizado em 1948) retrata o cotidiano de uma sociedade dominada por um regime político totalitário e repressivo. Nessa sociedade, Orwell temia que os livros fossem banidos e a informação privada dos indivíduos, escondendo dessa forma a verdade. Vive-se num ambiente controlado pelo temor e a constante ameaça de um inimigo externo.

Em Admirável Mundo Novo, Huxley previu um mundo em que nos seriam oferecidas tantas informações, que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo (alguma semelhança com o feed do seu Facebook é mera coincidência).

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Vale a reflexão sobre o tipo de informação que consumimos e as notícias que compartilhamos. Compare o número de comentários que um post de zoeira (nada contra a zoeira) recebe e uma informação importante, que atinge o cotidiano de grande parte da população.

No caso acima, a sociedade contemporânea tem se aproximado muito do futuro previsto por Huxley, onde somos bombardeados com tanta informação que acabamos tomando uma atitude passiva em relação a vida e o ambiente ao nosso redor. Vale a reflexão sobre o conteúdo que você tem criado e compartilhado na internet.

Sabemos que o potencial de viralização da bunda da Kardashian é muito maior do que o feito de um “grupo de nerds” que estão explorando um cometa distante não sei lá aonde. Isso reflete muito o que realmente interessa para as pessoas no seu dia a dia. Buscamos mais entretenimento do que qualquer outra coisa. Afinal, a maioria das pessoas que conhecemos não se reúnem num bar para discutir tratados filosóficos ou fórmulas de física quântica (ao menos, não no início do encontro).

Pensamos nisso para que mais cometas sejam explorados, novas melhorias sejam aplicadas no dia a dia da sociedade e menos bundas sejam expostas nas capas de revista. (Kim Kardashian, gostaríamos de  frisar que a sua bunda é muito bonita, mas a beleza envolta na sonda Rosetta nós faz acreditar na humanidade e no seu potencial criativo)

Fontes:

Admirável Mundo Novo x 1984
Quadrinho Explicativo Admirável Mundo Novo x 1984
Diário do Centro do Mundo – Kim Kardashian não quebrou a internet…
Entenda mais sobre a missão aqui
Pouso do Módulo Philae

“O que Orwell temia era aqueles que baniriam os livros. O que Huxley temia era não haveria razão para banir um livro, porque não haveria quem o desejasse ler. Orwell temia aqueles que nos privariam da informação. Huxley temia aqueles que nos forneceriam tanta informação que nós seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade estaria imersa em uma mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornaríamos uma cultura aprisionada. Huxley temia que nos tornaríamos uma cultura trivial, preocupada com algum equivalente do cinema sensível, das orgias e dos jogos triviais. […] Em 1984, Huxley acrescentou, as pessoas são controladas ao infligir dor. Em Admirável Mundo Novo, elas são controladas ao infligir prazer. Em resumo, Orwell temia que o que odiamos nos destruísse. Huxley temia que o que amamos nos destruísse”. – Neil Postman, no prefácio do livro Amusing Ourselves to Death (uma crítica excelente, infelizmente sem tradução para o português).

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