Interpretação dados e criação de modelos- Uma visita ao Labic

A interconexão dos computadores e o fluxo de conteúdos através das mais variadas mídias e meios, vem alterando nossas práticas, atitudes e valores. Nossas relações diante dos acontecimentos já são outras, se faz mais que necessário que existam plataformas para a livre expressão e interação, as redes sociais. Hoje produzimos conteúdo, logo somos parte dos acontecimentos e por vezes somos protagonistas. Portanto, esta dinâmica das redes sociais merece atenção, as pesquisas sobre os papeis que os indivíduos adquirem ou colaboram são essenciais. Dessa mesma forma indicam as principais leis fundadoras da Cibercultura, liberação do pólo de emissão, o princípio da conexão em rede e a lei da reconfiguração descrita por Pierre Lévy em seu livro Cibercultura (1997).

Pierre_Levy_-_Cibercultura
Pierre Lévy, Cibercultura

Semana passada, no dia 16/04, o NCD fez uma visita ao Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, Labic, que realiza um trabalho muito interessante neste sentido.  O projeto se desenvolve na Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, no setor da comunicação social e iniciou seus trabalhos no ano de 2007.

O foco dos estudos é a análise da cultura digital sobre a comunicação na atual conjuntura da sociedade considerando o grande fluxo de informações obtidas principalmente pelas redes sociais. Atualmente eles utilizam as plataformas do Twitter, Instagram e Facebook no desenvolvimento dos projetos.

Os trabalhos são observados por três frentes principais, são elas: texto, imagem e modelagem. Na frente de texto são coletadas e escolhidas palavras chaves e hashtags, seja para apontar quais são as mais usadas como para elencar quais delas serão utilizadas para as pesquisas. A frente de imagem é orientada para a observação do conteúdo e para a divisão em escalas de cores das imagens. E finalmente a frente de modelagem na qual buscam criar perfis, analisar o comportamento dos dados, categorizam e observam os modelos. Os trabalhos do Labic, portanto, seguem basicamente este modelo de análise.

O laboratório realizou notáveis pesquisas relacionadas às manifestações ocorridas em junho de 2013 assim como a de março de 2015. Por meio de scripts, que são linguagens relativas à programação e que executam as funções inseridas nos programas de computador, o grupo apontou milhares de palavras chaves e hashtags no Twitter em um certo período de tempo. Identificaram tanto as imagens mais compartilhadas como o “caminho” da informação revelando grupos de usuários com interesses em comum.

Rede de Hashtags #15M no Twitter
Rede de Hashtags #15M no Twitter.  Reprodução/ Créditos Labic

Ainda verificaram o uso de perfis Bot, diminutivo de robot, é uma aplicação de software criado para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão. Uma das funções percebidas de uso de bots é a de compartilhar os tweets entre si, dando a impressão de que o assunto está em evidência, quando em alguns casos ninguém o citou. Com base nestes dados foi possível mostrar os grupos a favor ou contra o governo.

C3- PO

Nos experimentos com o Instagram a equipe do Labic analisou o comportamento e os padrões das imagens além de observar o momento da publicação e ainda mapear, em termos, a mensagem, quando indicada a localização em gps. As imagens foram separadas pela cor predominante, brilho, saturação e contraste. Nos protestos de 2013 por exemplo, a maioria das fotos eram tiradas das ruas à noite, logo tinham brilho baixo ou acabavam ficando “estouradas”, ficavam amareladas pelas luzes dos postes, assim por diante.

Manifestações Junho 2013. Reprodução/ Créditos Labic
Manifestações Junho 2013. Reprodução/ Créditos Labic

E talvez um dos mais reconhecidos trabalhos do laboratório, o Cores da Copa, recolheu em tempo real imagens ligadas à Copa de Mundo de 2014 divulgadas no Twitter. O período da coleta das imagens foi de 12 de junho à 13 de julho e foram reunidas 42.522 imagens extraídas de aproximadamente 2 milhões de links. As imagens podem ser visualizadas de 4 maneiras diferentes no site criado para a pesquisa, em suma mostram as imagens, todas elas, nas suas respectivas tonalidades, o mosaico de cores, uma linha do tempo indicando as fotos mais compartilhadas e com a representação de suas datas. Por fim, uma análise diária das 10 fotos mais compartilhadas do dia além da indicação gráfica da posição em que ocupavam, no nível das mais visualizadas, de acordo com o horário. Com base nas observações feitas pelo Blog do Labic foi possível notar que as imagens que circularam durante o mundial foram basicamente “meméticas”, imagens que são passíveis de vários significados com uma carga emocional, criadas para se tornarem memes. Para além das imagens em sua questão estética, o padrão das imagens em rede foi observado. O volume e a variação relacionados a velocidade da transmissão de dados justificam o porquê das imagens perderem visibilidade e outras ganharem, cada dia da copa tinha seus acontecimentos que mereciam atenção, por exemplo. Dessa maneira cada imagem tinha seu momento.

Mosaico de Imagens da Copa. Reprodução/ Créditos Labic
Mosaico de Imagens da Copa. Reprodução/ Créditos Labic

Embora não utilizados fundamentalmente para fins comerciais, os trabalhos podem ser explorados em várias áreas da comunicação, sendo uma delas a Publicidade. Saber o que os consumidores pensam e escrevem nas redes sociais é muito importante para uma marca. Possuir um capital social positivo cria muitas oportunidades e representa em outras palavras o valor que uma marca possui no mercado.  Perfilar seus consumidores e alinhar seus produtos à eles, identificar nichos específicos para segmentar uma linha de produtos, mapear seus consumidores, apontar palavras chaves para incorporá-las na mensagem publicitária da marca, verificar nas imagens a forma como os clientes usam os produtos, são algumas das várias formas de se aplicar os resultados das pesquisas.

É importante, dessa forma, reconhecer as ações das redes sociais quanto conteúdo e mídia a ser estudada, compreender essa relativamente recente forma de mobilização e transmissão de informações vendo o fato de que no Brasil não existem muitos laboratórios ou centros de pesquisa que fazem tais análises.

Uma campanha bem curiosa seguindo o padrão de criação de modelos à partir de dados obtidos pela rede é a da Seda Teens. A Seda desenvolveu uma pequena rede social para meninas publicarem seus gostos e opiniões a respeito tanto do produto em si como também sobre assuntos diversos. Com esses dados a marca teve a oportunidade de segmentar seu produto mesmo em um tempo no qual a tecnologia mobile tinha suas limitações.

Veja aqui: https://youtu.be/BE-Mti2xJVo

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