Essa notícia é um espetáculo!!!

“Durante as últimas décadas, as indústrias culturais possibilitaram a multiplicação dos espetáculos nos novos espaços midiáticos e em sites, e o espetáculo em si tornou-se um dos princípios organizacionais da economia, da política, da sociedade e da vida cotidiana.” Douglas Kellner

Não é difícil perceber a validade da afirmação de Douglas Kellner na sociedade contemporânea, basta você ligar a televisão, acessar um portal de notícias e procurar os vídeos mais “relevantes” do Youtube. As formas de entretenimento permeiam notícias e dados, e uma cultura de infoentretenimento tabloidizada está cada vez mais popular, frequentemente somos bombardeados com notícias e escândalos que acabam se transformando em verdadeiros espetáculos.

Uma das lógicas da publicidade e dos anunciantes é a busca de um determinado público a custos cada vez mais baixos. Percebe-se que essa lógica tem invadido o jornalismo, mesclando a informação com o entretenimento, derrubando a fronteira entre essas duas áreas. Uma informação contextualizada e apurada por profissionais de comunicação divide espaço com informações de entretenimento e lazer midiático. A busca pela audiência/cliques intensificou a divulgação do espetáculo nos meios de comunicação.

Nesse contexto, o espetáculo começa a se tornar o grande protagonista da sociedade contemporânea. As informações/notícias são espetacularizadas e a publicidade sai da televisão e “invade” os grandes eventos e os momentos de lazer/entretenimento.

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Guy Debord desenvolveu o conceito da Sociedade do Espetáculo nos anos de 1960. Para o teórico francês, o espetáculo constitui uma ideia abrangente para descrever a mídia e a sociedade de consumo, incluindo produção, promoção, exibição de mercadorias e seus efeitos. Para o autor, as relações entre as pessoas transformaram-se em imagens e espetáculo. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”, argumenta Debord.

Essa transformação da realidade em espetáculos acaba atingindo as diferentes áreas da comunicação. Em recente artigo no Observatório da Imprensa, intitulado O Suicídio do Jornalismo, Sylvia Moretzsohn fala sobre o jornalismo caça ao clique. Segundo a autora, com o campo aberto pela internet, as grandes empresas, no Brasil e no exterior, não parecem ter clareza no que devem fazer. Ao invés de priorizarem o jornalismo, que exige o distanciamento e o rigor, essas empresas cedem ao imediatismo e à cacofonia das redes.

A vida político-social acaba sendo moldada pelo espetáculo. A própria globalização se expandiu através do espetáculo. A cultura da mídia global está dominada por megacorporações que combinam entretenimento, informação e uma vasta seleção de produtos comercializáveis.

Eduargo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, falecido recentemente no último dia 13, fala sobre uma sociedade da incomunicação. Para Galeano, o mundo nunca foi tão desigual economicamente, nem tão furiosamente igualador, em relação as ideias e costumes que se impõem em todo lugar. “Seus progressos devastadores, no entanto, saltam aos olhos. Os meios de comunicação da era eletrônica, a maioria a serviço da incomunicação humana, estão impondo a adoração unânime dos valores da sociedade neoliberal. Eles nos mentem, por imegens ou omissão, e concede, no máximo, o direito entre escolher coisas idênticas.”

Em relação a publicidade, Francisco Gracioso fala do casamento entre o Espetáculo e a Comunicação, uma das características da sociedade pós-moderna. Pós-moderno deriva do termo pós-modernismo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, e ao contrário da Sociedade Industrial, este não é um termo que encontrou um denominador comum. Mas, segundo Gracioso, podemos afirmar que o conceito de da sociedade pós-moderna envolve estas características principais:

  • Hedonismo – a busca frenética pelo prazer que leva à obsessão pelo espetáculo;
  • Conflito entre indivíduo e coletividade – a contradição que existe entre a força da horda, provocando o surgimento das tribos urbanas e a busca dolorosa de si próprio que atormenta os seres humanos;
  • Negação dos valores e da autoridade – uma revolução sem causa que procura destruir as estruturas sociais, pregando a liberdade sem limites e o esquecimento dos valores morais;
  • Vulgarização da informação – ao contrário da terminologia usada por muitos, não se pode falar de explosão do conhecimento. As massas de hoje são talvez mais ignorantes e perigosas do que nunca, mas em teoria têm à sua disposição uma pletora de informações que não são capazes de utilizar;
  • Velocidade das mudanças – O mundo está em constante evolução e isto aprofunda o fosso entre as gerações.

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Nesse sentido, indiferente qual seja a sua classe social, somos todos pós-modernos, queremos ter, ser, fazer e pertencer. Nesse contexto que acontece o marketing de hoje, uma proposta apoiada cada vez mais no entretenimento. A publicidade e a propaganda assumem novas dinâmicas. As marcas, além de investirem em anúncios e em comunicação de massa, passam a explorar o cotidiano da sociedade e os grandes espetáculos. Veja o nome dos palcos do último Lollapalooza que você vai entender o recado. No mapa abaixo conseguimos identificar o Palco Axe, Lolla Express by Correios, Sempre Livre Lolla Lounge, Palco Skol, Pepsi Live Sound, Fusion DJ Studio, Ray Ban Expression, Espaço Chevrolet Onix e assim por diante.

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Reparou que, praticamente, todos os locais do evento estavam associados a alguma marca? O mesmo tem acontecido com alguns veículos de comunicação, que deixam de abordar aspectos importantes da sociedade, e passam a focar na informação enquanto meio para o entretenimento e o lazer. Por isso que vocês viram a chamada desse post com o Boo, um dos mais fofos da internet, segundo o BOL. E a imagem do post é de uma notícia, informando que ele havia viajado de primeira classe num avião. Mais de 16 milhões de pessoas seguem o Boo no Facebook.

Termino o post com uma campanha da TETO, uma ONG com atuação em diversos países, que faz uma crítica as notícias que são veiculadas pelos principais veículos de comunicação.

O problema não é o que vira notícia, mas o que deixa de ser.

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Referências:

Cultura da Mídia e Triunfo do Espetáculo. Douglas Kellner – artigo publicado no livro Sociedade Midiatizada, organizado por Dênis de Moraes, 2006.

A Caminho de Uma Sociedade da Incomunicação? Eduardo Galeano – artigo publicado no livro Sociedade Midiatizada, organizado por Dênis de Moraes, 2006.

Espetáculo e Comunicação: Um casamento pós-moderno. Francisco Gracioso – artigo publicado na Revista da ESPM, Julho/Agosto de 2007.

Como funciona a ditadura do consumo. Eduardo Galeano

Revendo Debord. José Aloise Bahia. Observatório da Imprensa 

O suicídio do jornalismo. Sylvia Debossan Moretzsohn. Observatório da Imprensa

Sua publicidade financia o que mesmo? Dal Marcondes. Carta Capital

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