O indivíduo multifacetado nas redes sociais

Vamos conversar um pouco sobre identidade, você já reparou como estão se alterando as nossas referências e a maneira como construímos/representamos nossa imagem.

Contextualizando-se, no final do século XX, fim da Geração Y (pessoas nascidas entre as décadas de 1980 e 2000) e início da Geração Z (pessoas nascidas a partir da década de 2001), pôde-se perceber uma mudança no processo de construção das identidades individuais. Com o advento da tecnologia, o processo de conexão e a multiplicidade de ações, de personalidades e de atividades (características da geração Y) inicia-se uma substituição da identidade unificada.

De acordo com Stuart Hall, passamos de uma identidade única para identidades fragmentadas que tem influências do ambiente externo (tecnologia, internet, mudanças sociais) por interferir no comportamento do indivíduo. Dai a reflexão sobre as mudanças estruturais das sociedades na pós-modernidade. De maneira geral as identidades que antes eram unificadas, sólidas tornam-se fragmentadas/multifacetadas, capazes de assumir diferentes perfis em momentos igualmente distintos. Extremamente volátil, esse ser encontra-se agora na constante e incessante busca pela visibilidade externa.

Quando comparadas as gerações pode-se notar atualmente uma maior flexibilidade da personalidade do indivíduo, já que, em outros períodos não era encontrada a multiplicidade de estilos que vemos hoje. Funcionava da seguinte maneira: Quando uma pessoa “associava-se” a um grupo todos os seus hábitos, práticas, amigos e até mesmo sua vestimenta deveria ir ao encontro do estilo escolhido. Por exemplo, as pessoas que se consideravam “rockeiros” só escutavam rock. andavam com pessoas do mesmo estilo, se vestiam como tal e assumiam características daquele grupo. Tudo muito sólido, com poucas mudanças. Atualmente, essas limitações quase não são encontradas. Hoje você escuta rock e amanhã axé. Tem amigos de todos os estilos e gostos. A diversidade está presente seu cotidiano e ser diferente tornou-se legal. Quer entender melhor? Dá um play ai.

Identificou-se com alguma coisa?

Se sim, bem-vindo ao agora, mas fique atento que em questões de segundos ele pode ser alterado. Sim e não, tudo e nada. Bem-vindo à internet.

Mas tudo bem, não podemos culpá-la de tudo, com certeza a internet e as novas ferramentas inauguradas com a web 2.0 não foram a única motivadora desse complexo sistema, mas a sua participação tem total influência na potencialização dele. Essa rede de infinitos caminhos impactou drasticamente na forma como o individuo constrói suas identidades, como se comunica e produz suas subjetividades. (Lucia Santaella -“A Ecologia Pluralista da Comunicação”)

Duvida? Pois então, pense numa rede social que você possui, tudo ali é construído, elaborado e modificado facilmente. Você cria uma identidade, um perfil, um corpo pra você, e esse corpo não precisa necessariamente ser o mesmo que você é aqui fora, que não precisa ser o mesmo do Facebook ou do twitter, você é um em cada uma dessas redes e em cada possibilidade de ser, você é você, ou não. É como colocar uma fantasia na qual a escolha está ligada diretamente a um personagem.

Simplesmente compare o seu comportamento em cada rede social e veja!!

E é assim que funciona, para ser livre hoje basta estar na internet e em questão de segundos você pode tudo, agora pergunte para o seu pai o que era ser livre pra ele?

Analisando historicamente, percebe-se desde sempre o desejo do ser humano em torna-se perene, isso pode ser observado nos quadros dos reis, monarcas que ficavam expostos para que aquela imagem fosse lembrada/eternizada, em seguida, a fotografia que por anos passou por processos químicos e físicos para que possamos hoje registrar um momento, um fato. Bom, e aqui estamos nos agora, registrando TUDO. Usufruímos desses anos de pesquisas e experimentos com um clique.

Essas imagens registradas, praticamente todas, passam pelo mesmo filtro: rede social. De acordo com suas características analisa-se em qual rede se encaixa mais a imagem tirada. Você é um em cada uma, lembra?

Partindo para uma análise básica das redes, que surgiram com popularização da web 2.0 no início dos anos 2000, percebe-se que apesar de cada uma delas possuir caraterísticas e recursos próprios, todas apresentam uma funcionalidade em comum: o compartilhamento ilimitado de informação com outros usuários. Todas com o mesmo objetivo final: Visibilidade.

Mas, quando disponibilizadas em todas as redes as imagens passam a ser acessíveis a outros usuários por tempo ilimitado. Embora diferentes, seus recursos de publicação de imagens seguem o mesmo princípio: imagens “eternamente” armazenadas e acessíveis à qualquer um que tenha acesso ao álbum tradicional.

Contradizendo todo esse sistema, em setembro de 2011, surge uma nova rede social com uma proposta diferente das outras: O Snapchat. Aplicativo criado, pelos estudantes norteamericanos Evan Spiegel e Bobby Murphy. Seu grande diferencial? Ao contrário das outras redes as imagens publicadas não são “eternamente armazenadas”, e não são acessíveis por tempo ilimitado. Esqueça o antigo álbum tradicional e entre no mundo do imediatismo, do efêmero. Nessa rede as imagens estão disponíveis apenas por alguns segundos (de 1 à 10) e em seguida são eliminadas. Não há compromisso com o depois e esse pode ser considerado o principal fator para o sucesso da rede que destaca-se principalmente entre os jovens.

E olhando de perto, há um enorme compromisso dessa rede com a Geração Z não acham?
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Baseando-se no conceito desenvolvido por Zygmunt Bauman da sociedade de Modernidade Líquida “(…) os fluidos se movem facilmente. Diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros (…) do encontro com sólidos, emergem intactos” (BAUMAN, 2001, p. 8).  Esse conceito pode ser observado nas relações atuais onde tudo ao redor está em constante mudança, é volátil. As organizações sociais passam a ser instáveis, perecíveis e imprevisíveis.

Ainda sobre o aplicativo Snapchat, entende-se o  conceito de “liquidez” do tempo. Analisando historicamente o tempo nunca passou tão rápido como nos dias atuais. Esse conceito compreende-se quando a plataforma permite um compartilhamento massivo de informações numa determinada velocidade.

No Snapchat,  construir uma identidade não é ter o conteúdo acessivo a qualquer momento e sim ter o momento. Não é você olhar o histórico da pessoa, como faz em um álbum tradicional do Facebook ou nas fotos antigas do Instagram, não é ver o  que a pessoa já fez e quem já foi (stalkear, termo difundido entre os jovens) a proposta oferecida é você ver quem ela é exatamente agora.

No Facebook por exemplo como um o próprio nome sugere, criar uma identidade é construir um livro da sua vida com informações (textos, imagens, videos, interesses, etc) acessíveis pra sempre. Já no Snapchat esses dados são facilmente descartados.



Percebido o diferencial da utilização do tempo no aplicativo Snapchat  passamos a entender o valor que possui nele. Assim como o preceito da economia “lei da oferta e procura” no qual os recursos escassos tem mais valor do que recursos abundantes o tempo, como uma variável, quando sujeito à escassez, garante uma valorização, por ser perecível.

Torna-se quase que uma necessidade abrir uma imagem e dedicar sua atenção à ela durante os segundos que se passam. Apreciá-la durante a contagem regressiva até o momento de seu desaparecimento.

A partir desse contexto pode-se perceber também uma inversão de poder já que em outras redes a relação entre quem emite o conteúdo e quem recebe concentra o poder no receptor que define ou ão consumir o conteúdo. Enquanto no Snapchat o emissor define o tempo que o receptor terá para consumir a mensagem. Atribuindo um certo controle para o emissor já que o receptor da imagem necessariamente tem que submeter-se as regras impostas pelo proprietário da imagem quando decide abri-la e a informação do tempo que será disponível, antes da visualização do receptor, cabe só ao emissor.

Além disso, a autodestruição da imagem agrega um certo teor de “mistério” para o conteúdo, passando uma ideia de segredo por serem perecíveis e imprevisíveis. Nunca se sabe o que pode aparecer na tela.

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Assim como a ideia de ser efêmero o jogo de poder também  é um ponto que atrai os jovens, visto que, pode-se ter um controle da intimidade, administrada e capitalizada por seus usuários.

Referência: LEN, Fernando, IMAGENS LÍQUIDAS: Um Estudo Sobre a Construção de Identidades no Aplicativo Snapchat.

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