8 de Março e o Empoderamento Feminino

Há muito tempo as mulheres deixaram de ser coadjuvantes na nossa sociedade. Muito foi conquistado desde o século passado – e muito ainda há de ser superado quando se trata da luta pela igualdade de gêneros. Entretanto, por incrível que pareça, o 8 de Março só começou a ser visto com outros olhos nos anos mais recentes.

O que mudou para que o Dia Internacional da Mulher deixasse de ser um dia meramente ilustrativo para as campanhas publicitárias e se tornasse a data representativa da luta pelo Empoderamento Feminino?

É inquestionável que a internet trouxe grandes mudanças. Nunca um movimento ganhou tanta força com tanta velocidade. As redes sociais permitiram que as mulheres se comunicassem e percebessem que unidas teriam mais chances de alcançarem seus objetivos do que separadas.

É isso que defende a “sororidade”, desconhecida por uns, ignorada por outros. A sororidade é a “união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum empoderando-se umas às outras”.

A internet deu ao Feminismo um novo significado que transpôs barreiras, derrubou conceitos machistas e trouxe à tona temas tabus que ninguém gostava de discutir. O Facebook, por mais polêmico que seja, deu visibilidade à causa e demonstrou que a mulher não precisa mais ficar calada quando é vítima de abuso, seja de qual forma ela o tenha sofrido. Por meio dessa união de pessoas, páginas e comunidades, surgiu a oportunidade de dar ao 8 de março a chance de expor a verdade em alto e bom tom. E a verdade é que as mulheres querem mais porque elas merecem mais.

Afinal, o que é o empoderamento feminino de que se tanto fala?

Segundo o site Plano Feminino, “O Empoderamento Feminino não é uma causa de uma pessoa, empresa ou organização, digo isso porque não é algo que tenha dono ou dona. É o que você pode fazer para fortalecer mais mulheres e desenvolver a igualdade de gêneros em todos os ambientes onde a mulher é minoria.”

O conceito está fortemente presente no feminismo, sendo definido como um aspecto de dimensão ética, política e prática deste movimento de igualdade entre os gêneros.

Na mesma linha de pensamento, em 2010 a ONU lançou “Os Princípios de Empoderamento das Mulheres” (Women Empowerment Principles – WEPs, sigla em inglês),  sete princípios para ajudar as empresas e as comunidades a entender como dar poder para mais mulheres.

  1. Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível.
  2. Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não discriminação.
  3. Garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa.
  4. Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.
  5. Apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing.
  6. Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.
  7. Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

Por mais óbvios que possam parecer para alguns, as condições em que as mulheres são empregadas profissionalmente não encontram as demandas apresentadas. Elas ainda recebem 25% a menos para realizar as mesmas tarefas que um indivíduo do sexo masculino. Muitas são assediadas em local de trabalho e quando confrontam os acontecimentos, são taxadas de loucas e inventivas. Tal fenômeno é conhecido como Gaslighting, “uma forma de manipulação que desencadeia um total esvaziamento da autonomia da vítima”. Esse e outros termos, apesar de velados, são frequentes na cultura machista, como explica a ONG Think Olga, responsável pela campanha nacional #ChegaDeFiuFiu, que questiona o assédio frequente que as mulheres recebem nas ruas e já tomam como hábitos cotidianos.

Apesar de ter seus princípios lançados recentemente, o empoderamento feminino é mais antigo do que imaginamos. Desde o ícone das mulheres revolucionárias, Frida Khalo, passando pela Queima dos Sutiãs em 1964, até o Movimento #ChegaDeFiuFiu, muito foi conquistado pelas mulheres por meio da sua luta pela igualdade. E a partir dela, cresceu e se propagou o Movimento Feminista.

Como deixa claro o site Lado M, que procura em seu conteúdo explorar o tema, quebrar tabus da sociedade e confrontar o machismo do dia a dia, “o feminismo não é um sistema de opressão e não busca alcançar privilégios para mulheres, mas sim desconstruir desigualdades entre gêneros, que prejudicam ambos de maneiras diversas”.

Por conta da dicotomia equivocada estabelecida entre Machismo e Feminismo, fica enuviado o julgamento e contraria-se o entendimento do que o Feminismo realmente defende. “Um homem não ganhará menos por conta do feminismo, um homem não será impedido, nem obrigado a exercer uma função  por conta do feminismo, um homem não sofrerá violência por conta do feminismo. Logo, num sentido prático, nem mesmo a misandria se sustenta, já que não existe um sistema que a englobe”, continua o site.

É nesse sentido que a página promoveu a campanha #NãoQueroFlores nas redes sociais. Com objetivo de propagar um novo sentido ao 8 de Março, a página buscou mostrar que as mulheres querem mesmo nessa data é o respeito, em TODOS os sentidos.
Para promovê-la, foi criado um manifesto online que reúne vários depoimentos de mulheres que sofreram de machismo e violência de gênero, ‘’#NãoQueroFlores, mas sim ser tratada com respeito em todos os outros 364 dias do ano. “Quero que as leis sejam cumpridas, que os tribunais não discutam sobre minha ‘honestidade’ se eu for vítima de estupro e nem ser questionada sobre minha vida sexual.’’ Escreveu a página.

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O Lado M se preocupa sobre a questão de empoderamento feminino, para que as mulheres tenham cada vez mais voz, da forma mais livre possível. Assim como ele, existem diversos outros sites que não apenas buscam enfrentar os equívocos machistas, mas também explicar, auxiliar e alertar onde o abuso começa e por que não deve ser tolerado. Blogueiras como a Jout Jout são famosas por exporem pontos de vistas agressivos, mas realistas. Elas afirmam que as mulheres devem sim fazer um escândalo em casos de assédio porque apesar de parecer normal, ser cantada na rua ou abusada numa balada NÃO é normal.

O feminismo na Indústria Musical

Nós não poderíamos falar de feminismo e não comentar sobre as pessoas de maior influência na mídia atualmente. As mulheres conhecidas como “Divas do Pop” e as maiores estrelas de Hollywood estão dando um passo a frente quanto ao assunto e expondo realidades que antes eram preferivelmente ignorados pela indústria musical e cinematográfica.

Lady Gaga, Taylor Swift e sua squad, Beyoncé e muitas outras artistas internacionais vêm usando sua fama e seu poder de influência para falar sobre absurdos vividos por mulheres em nossa sociedade moderna.

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A cantora e compositora norte-americana Taylor Swift, 26 anos, em 2015 estampou os tabloides acompanhada de seu squad, que é uma turma de jovens mulheres famosas que incluem modelos, atrizes e outras cantoras que além da amizade, tem o intuito de colocar o tema do empoderamento feminino na sociedade.

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Apesar das controvérsias que circulam a cantora, é notável que Taylor faz uso da sua influência com o público jovem e feminino para transmitir os valores do feminismo e demonstrar que o espírito de sororidade deve falar mais alto do que a competitividade.

A cantora norte-americana Kesha voltou aos holofotes esse ano, mas dessa vez não foi pra divulgar mais um de seus sucessos. Acontece que no dia 19/02 a cantora perdeu a primeira audiência de seu processo contra Dr. Luke, seu antigo produtor e agressor. Kesha afirma ter sido abusada física e psicologicamente pelo produtor e por causa de questões contratuais, a cantora não pode lançar nenhum material de trabalho desvinculada de seu agressor.

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O que chamou atenção nas redes sociais foi que, mesmo Kesha fazendo parte de um grupo seleto de mulheres, sendo uma mulher branca, cisgênero (quando a pessoa se identifica com o seu gênero biológico), com alto poder econômico e fama, a cantora não conseguiu resolver as questões judiciais necessárias para afastá-la de seu agressor. Foi aí que fãs e admiradores surgiram com a campanha #FreeKesha em várias redes sociais, que reuniu um abaixo-assinado com cerca de 200 mil assinaturas contra o processo e mais de 50 personalidades famosas se mobilizaram a favor do caso, entre elas estão Lady Gaga e Taylor Swift, que chegou a doar cerca de 250 mil dólares para ajudar Kesha em seu processo contra Dr. Luke.

Da mesma forma, feminista declarada, Lady Gaga não se sente intimidada em falar sobre o assunto em suas músicas e entrevistas, sempre discursando sobre as diferenças e dificuldades enfrentadas por mulheres na indústria da música.

Recentemente a cantora revelou ser vitima de abuso sexual, quando tinha 19 anos, por um produtor vinte anos mais velho que ela, na época, um ato de extrema coragem, já que a maioria das vítimas de qualquer tipo de abuso não falam sobre o acontecido, por medo de como a sociedade vai enxerga-las. Gaga admitiu que demorou cerca de dez anos para se abrir sobre o assunto, temendo ser culpada por seu abuso e de que as pessoas a considerariam “suja” e “impura”, principalmente por sua família ser católica.

A música “Till It Happens To You”, indicada ao Oscar como Melhor Música, fazendo parte do documentário The Hunting Ground, pode ser visto como um grito de socorro, mostrando de forma emocionante o que acontece com as vitimas e os conflitos que se instalam em suas vidas após o abuso sofrido.

Gaga se tornou uma grande porta-voz do empoderamento das mulheres, denunciando o machismo e principalmente a cultura do estupro que se encontra em nossa sociedade.

O feminismo em Hollywood 

Emma Watson, de apenas 25 anos, conhecida por seu papel em Harry Potter posicionou-se fortemente como uma feminista e tornou-se porta-voz da campanha da ONU, He For She, na qual ela pede que os homens se juntem às mulheres na luta pela igualdade entre gêneros.

“[…] acho que é direito que me paguem o mesmo tanto que meus colegas de trabalho do sexo masculino. Eu acho que é direito tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho que é direito que mulheres estejam envolvidas e me representando em políticas e decisões tomadas no meu país. Eu acho que é direito que socialmente, eu receba o mesmo respeito que homens.” Seu discurso tornou-se memorável e levou milhares de garotas a se posicionarem frente aos abusos que vinham sofrendo em segredo”.

Hollywood, mesmo no ano de 2016, demonstra-se ainda ser um palco de machismo. Apesar de serem os artistas mais bem pagos do mundo, ainda existe um enorme abismo salarial entre homens e mulheres quando se trata de produções cinematográficas. Atrizes como Jennifer Lawrence, Maryl Streep e Patricia Arquette já se pronunciaram abertamente sobre como seus trabalhos são afetados pelo simples fato de serem mulheres.

O pior de fato é o que acontecem com mulheres negras, como apontou Viola Davis em seu discurso como a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de Melhor Atriz Dramática. Segundo ela, o que separa as mulheres negras do resto da sociedade são as oportunidades que, para elas, são escassas.

Entrevista 

É certo que existe uma diferença entre a luta das mulheres brancas e negras quando se trata de destaque na sociedade. Em busca de entendimento e esclarecimento sobre o que realmente é o Feminismo e suas vertentes, entrevistamos uma estudante de Serviço Social da UFES, que além de Ativista, é representante do Movimento Negro e Feminista.

Inicialmente perguntamos:

Por que precisamos do Feminismo?

Em resumo, ser Feminista é acreditar na igualdade social, política e econômica entre os sexos. Precisamos do Feminismo para que exista união entre as mulheres e principalmente para desconstruir as bases e privilégios machistas que existem na sociedade.

Mas e quanto às mulheres negras? Qual é o papel do movimento negro dentro do Feminismo?

Dentro do Feminismo, existem lutas específicas que são enfrentadas apenas por mulheres negras. O papel principal do movimento negro dentro do Feminismo é dar voz a essas mulheres, que são, em sua maioria, menos privilegiadas na sociedade, ocupam cargos subalternos, morrem com mais frequência e sofrem desigualdades sociais.

O feminismo negro traz hoje sua identidade mais concreta, não como um movimento separatista, mas implementar, que está incluído nesse meio. Vemos em pequenos detalhes essa libertação negra, como mulheres negras assumindo sua identidade visual, deixando de lado os alisamentos e aderindo aos cachos, tranças, turbantes, penteados afros. Diversas blogueiras negras hoje ocupam o mesmo espaço na mídia e público que as demais, com dicas específicas para o público negro.

Exemplo disso, o single “Formation”, de Beyoncé, recém-lançado, que em sua letra e apresentações mostra o posicionamento destemido, empoderamento da mulher negra e uma crítica social, que trouxe o assunto da volta ao debate, que era pouquíssimo explorado. Ainda no cenário internacional vemos exemplos como Michelle Obama, primeira dama americana, figura pública negra com extrema influência mundial. Nunca houve uma época com mulheres negras tão influentes.

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O que você sugere que seja feito para conscientizar as pessoas e criar uma sociedade mais justa e inclusiva para as mulheres no futuro?

 Gostaria que houvesse mais debates e intervenções feministas, mas que principalmente, mais pessoas tivessem acesso aos coletivos e atividades que envolvam o movimento. Temos que expandir a informação não só dentro das Universidades, mas também em escolas públicas, periferias e grandes empresas, para que o Feminismo seja conhecido para o maior número de mulheres, para que abracem a causa e também se sintam acolhidas dentro do Feminismo.

 Vemos assim que, dentre tantos outros exemplos que podemos citar, com toda a força que a mulher vem ganhando nos últimos anos, a influência da mulher negra nesse movimento tem sido vital para agregar conteúdo aos ideiais feministas, e mostrar que as conquistas nessa luta por igualdade vêm quebrando diversos tabus além do machismo, e construindo um novo cenário sócio-político-cultural no mundo.

A mulher não é e nunca foi um sexo frágil.

Leia mais sobre o assunto em portais como:

Lado M

Think Olga

Empodere Duas Mulheres

Empodere suas raízes

Plano Feminino

Coletivo Vamos juntas?

Café, Tesão, Feminismo e Revolução

Coletivo Negrada

Mamilos

 

Texto colaborativo por:

Alessandra Santarosa | Guilherme Melo | Parley Barbosa | Sérgio Zani | Caroline Sabino | Lívia Reim

 

 

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