O Oscar, Glória Pires e a Cultura da Convergência

A cerimônia de entrega do Oscar, uma das principais premiações da indústria cinematográfica, é um evento de cobertura mundial e de grande repercussão na mídia. Um dos momentos mais esperados desse ano era a vitória (ou não) de Leonardo Di Caprio na categoria de melhor ator.

Durante a semana que antecedeu ao evento, as redes sociais e os portais de notícias foram invadidos por matérias e memes sobre da indicação – e possível  premiação – de Di Caprio (finalmente) com o filme O Regresso (2016).

Quem acompanhou a transmissão pela TV Globo no domingo (28/02), contou com uma atração a parte: a atriz Glória Pires foi convidada para comentar a premiação ao lado de jornalistas e acabou protagonizando um evento que quebrou a internet. As redes sociais foram invadidas por memes e o assunto viralizou.

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Com comentários lacônicos do tipo: “bacana”; “curti sim, foi merecido”; “não assisti” e o mais replicado nas redes “não sou capaz de opinar”, a atriz protagonizou um evento ímpar na transmissão da cerimônia. O que se espera, geralmente, de um comentarista convidado para cobrir esse tipo de evento, é que ele desenvolva as suas percepções sobre os filmes indicados, ou que ao menos tivesse assistido para compartilhar suas impressões sobre cada um.

Pela manhã, uma enxurrada de publicações sobre sua atuação nos comentários da cerimônia não deixaram dúvidas: Gloria zerou a Internet e ganhou mais menções que os próprios atores premiados no Oscar 2016.

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Um fato é que vários veículos de comunicação, de forma quase unânime, analisaram o ocorrido como um vexame por parte da atriz, devido aos seus comentários desanimados e em alguns momentos seu  total desconhecimento de alguns filmes/atores indicados. Mas podemos ter um outro olhar sobre o episódio e analisar alguns pontos sob a ótica da Cultura da Convergência.

A teoria de Henry Jenkins é entendida como um fenômeno cultural, onde “Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de pedaços e fragmentos extraídos do fluxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana”. Traduzindo para você, meu amigo, que faltou ou dormiu durante essa aula na faculdade: os indivíduos recebem/consomem conteúdo de diferentes formas ao longo do dia, com a tecnologia atual eles conseguem fazer ligações, por exemplo, entre o meme do John Travolta perdido, e os comentários da Glória Pires na transmissão da Globo.

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Daqui podemos tirar duas análises, pensando na credibilidade x audiência: sobre a audiência, a repercussão que o evento teve nas redes sociais acabou despertando a curiosidade das pessoas para conferir a transmissão do evento na TV Globo, consequentemente, aumentando a audiência. Fato que, se a audiência vem caindo a cada ano, esse falatório serviu para manter os números no mesmo nível do ano anterior, ponto positivo pra Globo.

Já rem relação a credibilidade, para um amante do cinema, os comentários da atriz demonstraram uma total apatia e falta de interesse na premiação, o que pode ter arranhado a imagem do canal em relação a transmissão de grandes eventos a repercussão sobre o carnaval desse ano é um exemplo disso. Surgiram muitas críticas nas redes sociais sobre a superficialidade dos comentários dados pelos apresentadores do evento, Fátima Bernardes e Alex Escobar.

Os conceitos desenvolvidos por Henry Jenkys podem ser claramente identificados nesse episódio. O primeiro ponto é a convergência dos meios de comunicação, pois percebe-se a força da segunda tela nesse evento (experiência de engajamento de audiência, que inclui a TV como um elemento integrante, ou, também, o fato do indivíduo ter um dispositivo eletrônico adicional [smartphone, tablete, notebook etc.] conectado a internet). Os comentários gerados nas redes sociais acabaram repercutindo na audiência de um dos maiores canais de TV aberta no país.

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Em relação a Cultura Participativa, percebe-se a participação dos indivíduos nos conteúdos veiculados pela indústria do entretenimento, sejam os memes gerados sobre a possível premiação para o Leonardo Di Caprio ou sejam os memes criados sobre os comentários da Glória Pires. A repercussão foi tamanha que a atriz respondeu ao episódio através de vídeo justificando sua postura e seus comentários naquele dia.

Outro ponto, em relação a inteligência coletiva, é a imensa produção de conteúdo gerada pelos indivíduos nas redes sociais. A quantidade de memes e de associações geradas em relação aos comentários da Glória foi tamanha que o assunto ficou em segundo lugar no Trend Topics do Twitter, perdendo apenas para o Oscar em si. Repare que ela ganhou mais menções do que vários atores premiados no Oscar em 2016.

E as repercussões não param por aí: Na segunda-feira (29/02) o site http://www.bemglo.com (loja virtual da Glória Pires) já possuía três camisas com frases da atriz sendo comercializadas: “Eu não sou capaz de opinar”, “Eu curti, bacana”, “Sou ruim de previsões.”. A página da Glória Pires no Facebook teve um aumento de 629,9% no número de novas curtidas, número que representa 146.943 pessoas.

Narrativas que acontecem em mais de uma plataforma vão se tornando cada vez mais frequentes na sociedade contemporânea, seja pelo intenso uso das TICs (tecnologias de informação e de comunicação), ou pelos novos comportamentos oriundos do advento da cibercultura.

Mas essa é uma discussão que ainda se inicia em relação a Cultura da Convergência e sua influência no nosso cotidiano. Um fato que pode ser constatado foi a habilidade com que Glória Pires (ou a sua equipe de assessoria) soube lidar com o episódio, publicando rapidamente um vídeo com o intuito de minimizar os possíveis danos a sua imagem e a forma como ela capitalizou o incidente produzindo as camisetas temáticas. Um belo exemplo de como transformar a adversidade em oportunidade.

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Eventos como esse são cada vez mais corriqueiros, vale lembrar o exemplo da prova de filosofia que citava a cantora Valesca Popozuda como uma pensadora contemporânea e a repercussão gerada, e mais recentemente o professor de biologia Nicola Cano, que carimba um “Tá tranquilo, tá favorável” nos trabalhos dos alunos. No caso da Valesca, o episódio serviu para colocar a cantora na agenda de discussão da mídia e da sociedade, já com o professor Nicola Cano já estão surgindo discussões sobre seu método de ensino e questões pedagógicas.

A Cultura da Convergência está cada vez mais inserida no nosso cotidiano, de forma orgânica e casual, tratando de diversos temas – complexos ou corriqueiros, seja a maior premiação da indústria cinematográfica ou uma prova de biologia do ensino secundário no interior do Espírito Santo.

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