Genderless:­ A moda sem gênero

O que é feminilidade? O que é masculinidade? Esses conceitos, há muito tempo estruturados, hoje já não se encaixam para definir grande parte da atual geração, que foge de estereótipos, rótulos e definições. Nunca os assuntos “sexualidade” e “gênero” foram tão discutidos como agora.

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Não, Panterona!!!! Nem sempre o boy é gay!

Muitos jovens não se definem mais como heterossexual ou homossexual, mas “flutuando” entre ambos. Vemos termos como “pansexualidade” serem visíveis, que é a atração sexual ou romântica independente da identidade de gênero, não distinguindo masculino ou feminino, vendo todos apenas como pessoas, o que vai além do conceito da bissexualidade.

É possível ser muitas coisas ao mesmo tempo. Em todo esse cenário social, definições estão sendo descartadas em diversos meios, em especial no mundo da moda. Vemos então o chamado “genderless” ou “gender blur”, a moda sem gênero, que tem mostrado muito mais do que apenas quebra de barreiras na distinção de peças de roupas: é um meio de expressão de identidade. E tem coisa melhor do que poder se expressar? (Como já dizia nossa rainha do pop, Madonna, “Express Yourself”, querideza). A moda sem gênero vem exatamente como essa quebra de paradigmas com a ideia de que roupas não são feitas para homens ou mulheres, são feitas para pessoas. É uma maneira de se vestir que vai muito além de estilo.

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O importante é ter estilo, não o gênero!!!!

As Marcas e a Moda sem Gênero

Observando os últimos desfiles, percebe-se que diversas marcas há tempos vêm mostrando sua posição quanto à moda sem gênero, entrado nessa onda, questionando o conceito de gêneros e reconstruindo-o. A grife francesa Givenchy, por exemplo, não tem esse assunto como novidade, já que mostra a um bom tempo, através de homens usando saias em suas passarelas, essa fluidez de gênero, assim como a Gucci, que na coleção Outono/Inverno 2015/2016 deixou claro esse posicionamento agênero, não apenas com homens de saia, mas camisas extremamente rendadas para eles, lenços florais e combinações mais “terno e gravata” para elas.

Nomes brasileiros como Alexandre Herchcovitch ​e João Pimenta vêm seguindo a mesma linha. Outras marcas já mostram suas ideias de fluidez de maneiras menores, como a americana Calvin Klein, com sua primeira fragrância sem gênero, abandonando o termo “unissex”; a francesa Chanel, com sua “noiva genderless” no inverno 2016, desfilando um terninho branco, entre outras.

Além das roupas em si, muitas marcas também tem usado modelos andróginos em suas campanhas. Já no ramo das lojas de “fast fashion”, as grandes redes de varejo, também vemos a inserção, mesmo que mais discreta, da moda agênero; como é o caso da espanhola Zara, com sua coleção intitulada “Ungendered”, coleção essa que foi alvo de muitas críticas, dividindo opiniões, pela falta de “originalidade”, trazendo peças bem básicas, como calças de modelagem reta e casacos de moletom, sem muito posicionamento sobre o que se pensa atualmente quando o assunto é fluidez de gênero.

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Temos também a holandesa C&A, com a última coleção intitulada “Tudo Lindo & Misturado”, propondo essa interação entre os guarda roupas feminino e masculino, sem levantar abertamente a bandeira genderless, mas deixando isso no ar para os bons entendedores, através de uma campanha onde os modelos fazem “experiências” usando pessoas mais características do gênero oposto (inclusive esta campanha sambou na cara dos conservadores brasileiros, né monamour?)

Publicidade e a Moda sem Gênero

É notável o crescimento de campanhas em relação ao movimento sem gênero, isso se da pelas constantes mudanças da sociedade atual? ou é apenas mais um modismo da indústria?

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Moda. É. Tudo.

Com o avanço da internet e consequentemente do acesso a informação rápida, a relação entre as pessoas e seu respectivo gênero e como a marcas se posicionam sobre isso, se somou a lista de questões sociais mais relevantes da atualidade, sendo assim, um novo cuidado do consumidor na hora de consumidor uma marca, produto ou serviço.

A moda sem gênero pode ser vista como um novo nicho pelo mercado publicitário e do marketing, ela apresenta uma enorme possibilidade de tratar o mercado de moda de uma maneira realmente revolucionário. Uma vez que será possível comercializar produtos para homens e mulheres, sem distinção, sem ter que seguir o calendário tradicional do mercado, sem padronização da modelagem, haverá um maior aproveitamento das matérias-primas e otimização do espaço físico, pois as lojas não precisaram mais de divisões físicas entre masculino e feminino. Podendo tratar desse mercado de forma mais criativa e com muito amor pra quebrar velhos esteriótipos.

É necessário que o mercado publicitário olhe para esse nicho com mais atenção, não somente como um modismo e, principalmente, enfrente os desafios propostos pelo mesmo. Os consumidores buscam cada vez mais representatividade nos produtos e marcas que consomem, por isso, tentar tratar dessa nova possibilidade de mercado de forma ultrapassada e obsoleta, não dará certo, como já foi mostrado com os cases da Zara e da C&A, que foram fortemente criticados nas redes sociais pela falta de originalidade e posicionamento. #polêmico

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Celebridades e a Moda sem Gênero

Quando se fala em inexistência de gênero na moda atual, não tem como não pensar nas personalidades que tem defendido essa causa em seu próprio guarda-roupa.

Um nome que se destaca no assunto atualmente é Jaden Smith, cantor a ator, filho do também ator Will Smith, que por diversas vezes vem usando peças femininas em seus looks, alegando que “são apenas roupas”; sua influência no tema é tanta, que a grife francesa Louis Vuitton o chamou para, ao lado de outras modelos, estrelar sua mais recente campanha feminina.

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Questionado sobre o assunto, em entrevista à revista GQ Style britânica, Jaden disse: “Eu sinto que as pessoas estão meio confusas sobre normas de gênero. Sinto que as pessoas realmente não entendem isso. Eu não estou dizendo que eu entendo, estou apenas dizendo que eu nunca vi nenhuma distinção. Não vejo roupas de homens e roupas de mulheres, eu apenas vejo pessoas assustadas e pessoas confortáveis.”

O pai, Will Smith, em entrevista à radio BBC, disse a respeito do estilo do filho: “ Jaden não tem medo de nada, ele é capaz de fazer qualquer coisa, sabe? Então ver isso como pai é assustador, aterrorizante mesmo, mas ele está completamente disposto a viver e morrer por suas próprias decisões artísticas, sem se preocupar com o que as pessoas pensam.”

Outro nome, agora nacional, que vem se destacando quanto ao posicionamento sem distinção de gênero é o ator Bruno Gagliasso. Ele já foi a premiações, eventos e programas de TV usando saias e, no aniversário de um amigo, usou um vestido vermelho de sua esposa, a também atriz Giovanna Ewbank, o que causou grande alvoroço nas redes sociais.

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Em entrevista durante o Baile da Vogue desse ano, usando uma saia xadrez, o ator declarou: “Estou adorando usar saia. A moda é livre, o ser humano que não é.”

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Bruno e Giovanna são frequentadores assíduos do programa global “Amor & Sexo”, que é o primeiro da emissora a quebrar paradigmas de orientação sexual e falar sobre o combate ao preconceito. (Esse programa é apenas sensacional!!!!).

Mais um nome adepto ao movimento é a atriz de “Orange Is The New Black”, Ruby Rose, abertamente adversa à definição de gênero e que se considera “gender fluid” (gênero fluido), que vem causando rebuliço na mídia com suas composições mais masculinas. Em entrevista ao site Refinery 29, Ruby se posicionou dizendo que “(…) Essas fronteiras na moda estão sendo quebradas aos poucos. Independentemente de quem você é, você deve se vestir da forma que quer se expressar. Eu estou me permitindo me vestir da forma que eu quero, com base na minha identidade, não na forma que as pessoas gostariam. Isso me fez feliz, verdadeira e confiante”.

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Não importa como ela se veste, Ruby Rose é um samba na cara de todos.

Podemos citar diversos outros nomes que em algum momento mostraram ser adeptos ou simpatizantes da moda e estilo agêneros, como Kanye West, ASAP Rocky, Emma Watson (rainha feminista), entre outros.

Mas afinal, por que a moda sem gênero é importante?

Existem inúmeras vertentes pelas quais esse assunto torna-­se relevante; como a desconstrução da identidade de gênero de grande parte da sociedade. Dentre os outros motivos, há o fato de muitas pessoas literalmente terem nascido sem um gênero definido, o que as torna sem uma identidade que corresponda à condição real de seu corpo, o que pode fazer com que se sintam sem identidade.

Há também o fato de que muitos, independente de condição física ou orientação sexual, simplesmente desejam se vestir de maneira diferente e se sentem muitas vezes inibidos pelas críticas que podem receber de outras pessoas. Como fazemos todos parte de uma sociedade que nunca foi tão questionadora, assuntos como esse podem ser em pouco tempo parte natural de nossa identidade como um todo.

Tratando-­se de décadas atrás, mulheres usando calças já foi uma afronta ao conceito social vivido hoje, mesmo para não entendedores de moda, é algo simplesmente natural. Hoje, homens usando saias e vestidos causa divisão de opiniões, mas sempre será assim?

À medida que a sociedade se remodela para algo cada vez mais aberto e sem restrições, cresce também a liberdade de expressar-­se como se deseja, o que é exatamente a proposta genderless. Barreiras estão sendo quebradas, sem a necessidade de novas “paredes” no lugar. Afinal, a sociedade em que estamos inseridos está em constante mutação.

Texto por: Guilherme Melo e Parley Barbosa.

Arte da capa por: Luciano Oliveira

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