O Feminismo e a inteligência coletiva

O Feminismo é importante, po##@!

Não temos como falar dos acontecimentos das ultimas semana sem voltar às premissas básicas do Feminismo:

     “Feminismo, por definição, é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os gêneros.”

Recentemente, vimos o Brasil ser palco de espetáculos de horror e tristeza para quem luta pelos direitos igualitários do gênero feminino. Vimos uma presidente ser atacada por meio de memes da internet, adesivos para carros, montagens e uma infinidade de conteúdos misóginos que circularam pelas redes sociais. Vimos, há apenas algumas semanas uma jovem ser exposta  através de um vídeo onde era violentada sexualmente e percebemos o quanto ainda é difícil ser mulher na sociedade contemporânea.

A parte boa é que estamos usando a inclusão digital e principalmente as redes sociais para empoderarmos as mulheres, dar voz à luta por direitos iguais e nos manifestar de forma aberta e democrática.

Percebemos que, na votação que aconteceu na Câmara dos Deputados, a maioria das colocações (não democráticas) em relação a presidenta do Brasil não foram relacionadas à política e a gestão em si, mas estiveram presentes fortes afrontas ao gênero feminino.

Você sabia que apesar das mulheres representarem mais da metade da população brasileira, elas ocupam apenas 63 das 594 cadeiras do Congresso Nacional? Pois é. Menos de 11% das mulheres estão lá dentro. Infelizmente, devido a essa baixa representatividade feminina dentro da política, durante a votação, ouvimos vaias à deputada que estava de licença maternidade e não compareceu.  Além disso, ouvimos a triste colocação do Deputado Jair Bolsonaro que homenageou o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Ustra foi apontado como responsável por perseguições, torturas e mortes, durante o período do Regime Militar. O coronel foi mencionado por Bolsonaro como “o pavor de Dilma”, remetendo às fortes perseguições e torturas que a presidente sofreu nas mãos do Coronel, quando se opôs ao Golpe de 64.

A questão é: não estamos aqui entrando em méritos políticos, mas levantando debate sobre o forte incômodo e os ataques proferidos por homens, quando o assunto é a mulher no meio político. Vimos uma presidente, durante todo seu mandato, ser alvo de “brincadeiras” desrespeitosas, misóginas e até mesmo que incitam e reforçam a cultura do estupro .

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Selecionamos essa imagem com intuito de te perguntar: Você sabe o que é cultura do estupro? Pois te explicamos: em sumo, esse termo é utilizado para descrever um ambiente no qual a violência sexual contra as mulheres é abordada de forma natural, seja na mídia, ou na cultura popular. Vivemos em uma sociedade patriarcal, que considera as mulheres como sujeitos de segunda categoria e disseminam termos que denigrem as mulheres, permitem a objetificação de seus corpos e, em alguns casos, até romantiza a violência sexual. Em todo caso, a cultura do estupro começa em pequenas brincadeiras como esta citada. 

E a verdade é que, todas essas agressões, quando designadas a UMA mulher em posição de poder, acabam se refletindo num ataque a TODAS as mulheres que, por meio dela, eram representadas. A questão em debate não é a presidente e seu partido, mas sim a forma como uma representante feminina na política sofreu fortes agressões durante seu mandato. 

Se você quiser entender um pouco mais a respeito da cultura do estupro, invista dois minutinhos do seu tempo para assistir esse video. Garantimos que é esclarecedor! ❤

Mas a notícia boa é a seguinte: as mulheres não estão deixando esses ataques passarem despercebidos e estão usando as redes sociais a favor delas. Podemos ver essa mudança de postura no caso da campanha da Skol para o carnaval de 2015.

A ação publicitária da Skol mostrava frases ligadas à perda de controle após ingerir a bebida alcóolica. Espalharam cartazes com frases como “topo antes de saber a pergunta”, “tô na sua, mesmo sem saber qual é a sua” e a mais polêmica: “esqueci o não em casa”. Algumas internautas ficaram extremamente ofendidas com os cartazes, principalmente este último, que foi considerado apologia ao estupro, e não se calaram:

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Rolou manifestação nas redes sociais contra a campanha, afirmando que elas passavam a ideia de que as mulheres estão disponíveis no Carnaval e que poderiam ser abordadas e tocadas sem consentimento. Após a polêmica, o Diretor de Comunicação da Ambev retirou todos os cartazes da rua e substituiu por novos, com um conceito mais “diga sim para as coisas boas”.

E a vitória foi das mulheres.

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Para relembrar as diversas mulheres que lutaram e morreram no período de Ditadura no Brasil, a página “As Mina na História” criou um movimento chamado: “Troque a foto do perfil: Em Memória Delas”. Naquela semana, após a declaração do Deputado Jair Bolsonaro, elas se dedicaram exclusivamente a lembrar de brasileiras que foram presas, torturadas e mortas durante o período de ditadura. E para que a história da Ditadura jamais se repita, muitas mulheres aderiram ao movimento.

Podemos chamar o movimento “Em Memória Delas” de Inteligência Coletiva, pois estamos em rede, interconectados com um número cada vez maior de pontos e pessoas, com uma frequência grande de notícias que só tende a crescer. E torna-se claro que podemos compreender melhor a atividade de uma coletividade, a forma como o comportamento e as ideias se propagam, o modo como notícias fluem de um ponto para outro e o efeito dessa interconexão entre as pessoas a partir desses movimentos.

Decisões individuais e coletivas parecem estar chamando a atenção não apenas das pessoas que trabalham com marketing, mas também dos estudiosos de redes sociais, dos sociólogos, ciberteóricos, especialistas em gestão do conhecimento e da informação e de todos aqueles que pressentem que existe algo novo a ser investigado nessas interações coletivas.

Essas movimentações nas redes sociais também têm chamado à atenção das grandes emissoras de televisão. Com a inclusão digital e o fácil acesso à redes sociais, alguns movimentos são criados na internet mas não param por lá: são divulgados e geram repercussão na televisão. A sensação é de que todos podem opinar, e quando a causa é nobre, a nossa voz é finalmente ouvida.

Vimos esse movimento acontecer na mesma semana da votação do Impeachment. Logo após a manifestação feminina no Facebook, o programa Fantástico da Rede Globo, transmitiu uma reportagem a respeito da citação do Bolsonaro e falou sobre manifestação coletiva que aconteceu nas redes sociais. Confira a matéria:

Por aqui a gente ama o BuzzFeed ❤ e a forma prática como eles abordam variados temas que estão em alta e precisam ser debatidos. De uma forma bem simples, pra tornar visível a naturalidade como os assédios acontecem, eles selecionaram 10 exemplos de mulheres que foram assediadas em frente as câmeras, enquanto trabalhavam.

Veja aqui.

Em Abril, a revista Veja publicou uma matéria com Marcela Temer, a esposa do presidente interino Michel Temer e a manchete a definiu como: bela, recatada e do lar. Quem se lembra? O texto tecia elogios ao fato de Marcela ser discreta, falar pouco e usar saias na altura do joelho. E assim deixou bem clara a tentativa da revista de fazer uma comparação ao que Dilma representa. É como se estivessem dizendo: mulher boa é a esposa, a primeira dama, a “que está por trás de um grande homem” e nunca uma presidente, fora do padrão imposto do que se entende por beleza e comportamento feminino.

Ficou claro que um homem no lugar de Dilma, não teria tido sua capacidade de gerenciar assuntos políticos questionada e nem sofreria ataques tão violentos como os que ela veio sofrendo nos últimos meses. Independente das críticas que se tenha ao governo é evidente que ela foi vítima de uma sociedade machista e o preconceito de gênero estava, em alguns momentos, sendo disfarçado de visão política. A matéria da Veja confirmou isso ao dizer que Marcela Temer é o modelo de mulher a ser seguido, à sombra, nunca à frente.

Vamos deixar bem claro que a crítica não é à Marcela e nem a mulheres que possuem um estilo de vida parecido. Problematizamos aqui o posicionamento da revista ao julgar que esse modelo de mulher é um padrão a ser seguido. Porque tudo bem se você for bela, recatada e do lar. E tudo bem também se você for o completo oposto disso, porque mulher tem que ser o que ela bem quiser.

E mais uma vez, elas não se calaram. A matéria gerou tanta polêmica (e revolta) nas redes sociais que movimentou as timelines de mulheres (e até mesmo homens) que postaram fotos em poses e situações totalmente contrárias ao padrão que a Veja tentou impor, se opondo a ideia de “bela, recatada e do lar.” Também não poderiam faltar os textões questionando a matéria da Veja, não é mesmo?

 

O movimento que tomou conta do Facebook tem página própria e, foram tantas mulheres que aderiram ao movimento e mandaram suas fotinhas, que dá orgulho de ver. Se quiser ver um pouco mais, clique aqui.

Ainda temos muita estrada pela frente na construção de uma sociedade mais igualitária entre os gêneros. A luta atual do feminismo vai muito além de olhar apenas para as mulheres e seus direitos. Também são preocupações do feminismo acabar com a descriminação de gêneros não-hegemônicos (como as pessoas transexuais), a busca incessante pelo ideal de beleza e o sexismo (que divide as coisas em “de homens de mulheres”).

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Deixamos aqui registrado todo nosso apoio à essa causa. Incentivamos a sororidade (união entre mulheres), que tanto ajuda na convivência e empoderamento feminino. A aliança e o companheirismo entre as mulheres, baseado na empatia de compartilhar objetivos em comum, está trazendo grandes mudanças e desconstrução de conceitos machistas, que estão infiltrados na nossa sociedade.

Mulheres: sem a ideia de irmandade entre nós, o movimento não estaria ganhando voz e proporções significativas para conquistarmos nossas reivindicações. A sororidade é importante, o feminismo é importante. E juntas, nós vamos longe.

Texto: Caroline Sabino
Capa: Luciano Oliveira

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