As plataformas digitais na televisão brasileira

A novela “Haja Coração“, que estreou no último dia 31 (maio), chegou com uma nova proposta para a televisão brasileira: a inserção de novas plataformas de mídia como base de comunicação entre personagens.

Começando com o capítulo final da novela anterior, “Totalmente Demais“, ter sido televisionado na segunda-feira (ao invés da padronizada sexta, com reprise no sábado), a mudança é considerada inovadora para uma emissora tão tradicional como a Globo. Alguns consideram como uma jogada de marketing para que a novela anterior alavancasse a audiência da sua sucessora, que provavelmente não teria uma recepção tão calorosa por ser mais uma novata entre outras.

Com Mariana Ximenes, Jayme Matarazzo, Malvino Salvador e outros atores jovens no elenco, a intenção é de que haja mais interesse e identificação com a história. Não é à toa que cada vez mais personagens LGBT estão roubando a cena, além dos famosos papéis escandalosos e populares que Tatá Werneck  costuma interpretar. Ou você ainda não viu o figurino que sua personagem, Fedora, vem utilizando? #bapho #glitter #brilho

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Com um layout disfarçado e uma pequena mudança na interface, o artifício FaceTime, exclusivo para aparelhos iPhone com iOS, foi introduzido para que os personagens se comunicassem visualmente de uma forma mais moderna, ao invés da velha ligação que já é clichê em todos os programas. A mudança na aparência disfarça, mas não esconde a cópia.

A Globo também investiu nas plataformas digitais para atrair mais telespectadores da geração Y. Além do FaceTime, o Snapchat foi jogado na roda para ser responsável por inserir personagens populares e famosos na trama. Com a aparência modificada, mas inconfundível para os usuários viciados, o objetivo do uso do aplicativo e de outras modernizações é nada mais do que aproximar a novela do público jovem, uma vez que as novelas estão perdendo a audiência para a internet.

Pesquisas apontam que hoje, os brasileiros gastam três vezes mais tempo na internet do que na TV (4h em média), e, dado o crescimento avassalador, logo passaremos para quatro vezes mais, e cinco, e seis – até que a TV seja extinta das nossas rotinas diárias.

De acordo com o site Diário do Centro do Mundo,

Não é apenas o Jornal Nacional que emagreceu consideravelmente nestes dez anos em que a internet se consolidou entre os brasileiros. O Domingão do Faustão, em São Paulo, o mercado que é referência para o mercado publicitário, desabou ao longo dos últimos anos para 10% do Ibope.

O último reduto da Globo, as novelas, seguem o mesmo percurso. Na década de 1980, Roque Santeiro teve, em seu pior dia, 58% de audiência. No melhor, 95%. Dez anos atrás, Senhora do Destino teve média de 50%. No ano passado, Salve Jorge ficou em 30%.” 

Não é uma surpresa que a TV já não está mais em sua época de ouro. Se você perguntar  a um grupo de jovens quem assiste Faustão, Fantástico ou Caldeirão do Huck, pouquíssimos levantarão a mão. Entretanto, se você questionar quantos acessam os aplicativos Snapchat, Twitter e Facebook diariamente, uma multidão se identificará.

Em plena era da Cultura de Convergência, esse quadro se justifica uma vez que podemos acessar a internet de qualquer lugar, a qualquer momento e o conteúdo que quisermos, enquanto a televisão fica presa a locais fixos e programações com horário marcado. 

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Se até o rei do talkshow americano, Jimmy Fallon, se apaixonou pelo Snap, por que a gente não pode, né non?

Talvez esse seja o maior segredo do serviço de stream, Netflix: a liberdade que o usuário tem de escolher o que quiser em um catálogo de milhares de filmes e seriados, pausar quando quiser e continuar quando quiser, sem ficar preso a horários pré-estabelecidos e aos intervalos comerciais.

Falando em Netflix…“Scream” (2015), baseada na sequência de filmes de terror dos anos 90, Pânico, também aposta na conectividade para trabalhar seu roteiro. A série de suspense faz uso de iMessage, Twitter, FaceTime e YouTube para estabelecer contato entre os personagens e dar continuidade à trama, que no passado, utilizava apenas o telefone para tal função.

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Outro exemplo claro da nova proposta de inserção das mídias online em programas de entretenimento é a web série americana, The Lizzie Bennet Diaries, baseada no romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito.

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The Lizzie Bennet Diaries é a primeira tentativa de uma releitura com base na Internet modernizada da história. Cada episódio é de dois a cinco minutos de duração e é apresentado como um vídeo blog, contado por Lizzie (no domínio da história) e filmado e editado por sua melhor amiga Charlotte (…) Todos os eventos são recontados e revividos por Lizzie, Charlotte, Jane, Lydia dentro dos limites do quarto de Lizzie. Há também semi-frequentes vídeos de perguntas e respostas (cerca de um em cada dez episódios regulares) em que Lizzie e outros personagens respondem à perguntas de sua audiência (…) Além dos blog de vídeo, todos os personagens também têm várias contas de mídia social com as quais interagem e revelam partes da história e perspectivas que não são necessariamente representados nos vídeos de Lizzie.

Além da praticidade que os aparelhos móveis e as milhares redes de w-fi nos oferecem, existe também a questão da qualidade do entretenimento. A TV aberta deixa a desejar na diversidade de conteúdo, sendo a maior parte dos seus programas telejornais, programas familiares e telenovelas. Os jovens, em sua maioria, não se interessam mais por tramas padronizadas ou notícias sensacionalistas. Eles buscam conteúdo de qualidade e inovador, com novos rostos falando sobre assuntos que se identificam.

Outro fator decisivo para a migração dos jovens para a internet, é a possibilidade de ver “gente como a gente”. A possibilidade de aproximação e identificação com celebridades que são “pessoas comuns” é um ponto a mais em relação às mídias tradicionais. Nas telenovelas os artistas são estrelas, inalcançáveis e sempre perfeitas. Já em um canal no Youtube ou no Snapchat, as estrelas são outros jovens, com vidas semelhantes as de quem assiste, que simplesmente decidiram começar a produzir conteúdo e se tornaram famosos a partir disso.

Mas parece que finalmente a televisão começou a perceber isso e, de uns tempos pra cá, está apostando em trazer o melhor da internet para dentro da sua programação.

O melhor exemplo disso é como a nova celebridade brasileira, Thaynara OG, advinda do Snapchat, está sendo chamada para a televisão. Além de diversas entrevistas e lançamentos ao lado de celebridades, Thaynara esteve no programa da Globo “Encontro com Fátima Bernardes” e  até uma participação especial em filme nacional.

Mais recentemente, a maranhense estrelou campanhas publicitárias para a Niely e para a Dakota Calçados. Com o username @thaynaraog, Thay, como gosta de ser apelidada, agora recebe 20 mil reais para marcar presença em eventos. É o poder do kiu, minha gente. 

Vários youtubers famosos também estiveram se fizeram presentes na TV (no próprio programa da Fátima e em diversos game shows e programas de entrevista) além de comerciais de grandes marcas mundiais como Coca-Cola e McDonalds.
 
A maioria dos adolescentes de hoje tem como plataforma de mídia principal os smartphones, substituindo a televisão pelos canais no Youtube e perfis no Snapchat em momentos de ócio, como enquanto fazem academia, almoçam, se locomovem de um lugar para outro ou até em encontros entre amigos.
Levar os criadores destes conteúdos para a tela da TV (e do cinema) é uma tática que vem sendo amplamente explorada e um exemplo claro de como os veículos e as marcas têm investido em ícones, plataformas e celebridades nascidas da internet, na busca de uma aproximação com o público mais jovem.
Por isso, é esperado que outras emissoras sigam nesse caminho e instaurem cada vez mais conectividade em suas programações, disponibilizando um conteúdo novo, diferente e divertido para agradar e competir cada vez mais com as outras mídias.

Fontes:

O Globo: Brasileiro passa mais tempo na internet do que na TV
Diário do Centro do Mundo: Como a internet está arrebentando a audiência da Globo
Wikipédia: The Lizzie Bennet Diaries
Wikipédia: Cultura de Convergência

Capa: Vinicios Silva.

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