A Música Como Plataforma da Diversidade de Gênero

Quantas vezes você já se deparou com questionários de perfis que pedem para você escolher entre sexo masculino ou feminino? Sua resposta costuma ser automática? Bom, nem pra todo mundo é. Para entender o porquê disso, precisamos diferenciar sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero.

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O sexo biológico está meramente ligado à presença ou ausência do cromossomo Y e à anatomia do sistema reprodutivo de um indivíduo. É o que por muito tempo foi imposto como a única forma de identidade do ser humano. Menino e menina. Homem e mulher.

A orientação sexual diz respeito à inclinação do indivíduo no sentido afetivo e sexual. Envolve questões sentimentais ligadas à atração por determinado sexo.

Já a identidade de gênero diz respeito à forma como a pessoa se enxerga e se identifica, independente da sua anatomia. O indivíduo que se identifica com um gênero diferente do que lhe foi imposto no nascimento é considerado transgênero. A pessoa pode nascer com o sexo biológico masculino, por exemplo, mas ter a identidade de gênero feminina. Ou até não se identificar com gênero algum.

Os transgêneros se dividem em duas diferentes expressões de condição: identidade (que caracteriza travestis e transexuais) ou funcionalidade (representado por crossdressers, drag queens, drag kings e transformistas).  

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A construção do gênero começa desde o nascimento quando a mãe escolhe o enxoval do bebê de acordo com o sexo. A partir desse momento, a criança começa a receber mensagens sobre o que se espera dela e de como deve se comportar.

Essas noções de sexo e gênero passaram a ser discutidas abertamente a partir dos estudos feministas no final dos anos 40. A filósofa francesa Simone de Beauvoir afirmou que “ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher”, contestando o pensamento determinista que usava apenas a biologia como forma de identidade do ser humano. A partir de então passou-se a entender que a construção de nossas identidades está ligada à práticas sociais, culturais e comportamentais.

O Papel da Mídia

O surgimento de novas tecnologias têm possibilitado a manifestação de novas instituições culturais (elementos tradicionalmente valorizados pelos membros de determinada cultura) além das convencionais. Elas também auxiliam na construção da identidade dos indivíduos, sendo a mídia uma das mais poderosas.

Por muito tempo a mídia teve papel essencial no reforço de estereótipos (pressupostos generalizados feitos sobre comportamentos e características de outros) ao construir ideais ligados à imagem do sexo masculino e feminino que nem sempre eram correspondidos, em especial por esses indivíduos transgêneros.

Os estereótipos contribuem para que os indivíduos não se identifiquem com as representações predominantes na mídia e, consequentemente, não se aceitem. Programas de televisão que reforçam em sua programação padrões ligados ao físico e ao comportamento de homens e mulheres, por exemplo, afetam a forma como a parcela da população que não se encaixa nesses padrões se enxerga.

“As imagens apresentadas pela TV penetram na vida das pessoas de forma interativa. Ela proporciona a criação de significados a partir de situações sociais. Suas mensagens e imagens visuais, ao interagir com as pessoas, afetam tanto as imagens mentais quanto o comportamento dessas.”

Mas não ficou por isso mesmo. Diversos artistas cumpriram – e continuam cumprindo – seus papéis de contribuição para a desconstrução de padrões de gênero. Grace Jones, Freddie Mercury, RuPaul, David Bowie e Madonna são alguns exemplos de artistas que utilizaram suas vozes e seus corpos para reformular esses ideais de mulher como o sexo frágil e homem com H maiúsculo.

Aqui no Brasil, um dos primeiros – e mais importantes – artistas a questionar essas noções de gênero foi Ney Matogrosso. Criador de um personagem andrógino em plenos anos 70, com a banda Secos & Molhados, foi responsável por transgredir o cenário musical e social com seus visuais que distorciam totalmente o que se esperava de uma figura masculina naquela época. E mais do que isso, Ney inspirou milhares de pessoas a aceitarem suas próprias identidades de gênero e compreenderem a pluralidade do contexto em que vivemos.

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Além de Ney Matogrosso, artistas como Cazuza, Rita Lee, Edson Cordeiro, Cássia Eller e Renato Russo também ajudaram a quebrar estereótipos a respeito da figura do homem e da mulher e os espaços que cada um ocupa no Brasil.

A Teoria da Cauda Longa

Só há um porém: ainda vivemos em um país extremamente tradicional e conservador. Por mais excelentes e influenciadores que esses artistas tenham sido, eles são considerados exceções. Ainda hoje, a maioria dos artistas brasileiros que tentam seguir esse caminho de utilizar suas próprias identidades para quebrar paradigmas sociais não possuem a mesma visibilidade do que tantos outros artistas consumidos pelas massas que, de certa forma, ajudam a reforçar estereótipos. Isso traz de volta aquele problema lá de trás da falta de representatividade de gêneros na mídia, o que contribui para a marginalização dos indivíduos que não conseguem se identificar com os ideais postulados.

E aí, como fazer pra mudar isso? É aí que entra a nossa querida Teoria da Cauda Longa.

Desenvolvida pelo jornalista americano Chris Anderson, a Teoria defende que nossa cultura esteja mudando do foco nos hits para os nichos. Uma economia movida a hits produz uma cultura movida a hits. Ou seja, se os investimentos só são aplicados em artistas que já estão no topo da curva da demanda, os únicos valores culturais perpetuados pela sociedade serão aqueles difundidos por esses artistas.

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O ideal é que nossa economia e nossa cultura se afastem cada vez mais do foco em hits que, apesar do grande alcance, são pouco numerosos, e avancem em direção a uma grande quantidade de nichos que estão na cauda da curva da demanda. A evolução do mercado consumidor tem criado segmentações cada vez mais pronunciadas com relação a produtos, e principalmente serviços, de modo a satisfazer os vários graus de exigência do consumidor.

Anderson diz que, hoje em dia, as pessoas gravitam em torno de nichos porque eles satisfazem necessidades e interesses distintos, agradando cada vez mais consumidores e seus gostos específicos. ”Quando consumidores possuem escolhas infinitas, a verdadeira demanda se revela.”

E é exatamente esse pensamento de mercado que tem possibilitado o surgimento de diversos artistas que, por mais que não tenham assumido um caráter mainstream, têm conseguido alcançar carreiras de sucesso. Como? Atingindo nichos específicos carentes de identificabilidade e reciprocidade de valores compartilhados. E assim se dá com a identidade de gênero.

Muitos desses artistas lançam seus trabalhos por meio de sites que promovem o financiamento coletivo (Crowdfunding), como o Catarse, graças à fãs que acreditam nos seus trabalhos. Eles querem que esses trabalhos sejam cada vez mais veiculados pela mídia e que cada vez mais pessoas possam se sentir representadas por esses artistas.

Liniker é um desses artistas. Negro, gay e de origem pobre, possui um visual que mistura batom, colar, bigode, turbante, vestido e cavanhaque e desconstrói enfaticamente todos os tradicionais códigos imputados ao gênero masculino. E além disso tudo, ela (como prefere ser identificada) possui uma voz poderosa cheia de soul.

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Lançou no final de 2015 o EP Cru, que rapidamente viralizou na internet alcançando milhões de visualizações, e recentemente seu primeiro álbum, intitulado Remonta. As canções, todas em português, falam de amor. Mas não só isso. Elas carregam toda uma discussão de gênero de maneira extremamente natural e que o colocam numa posição de inspiração e influência para milhares de ouvintes que compartilham daqueles sentimentos a partir dos mais diversos parâmetros.

“A gente está botando pra fora o que está reprimindo a gente, colocando pra fora as coisas que têm que transformar e esperando que as pessoas levem isso pro cotidiano delas.”

A transsexualidade passou a ser mais discutida no cenário da música brasileira atual com o sucesso da Banda Uó, banda de pop formada em 2010 na cidade de Goiânia, que tem como integrante a cantora Candy Mel. E ela foi pioneira em bastante coisa. Primeira trans a estrelar em uma campanha da marca de cosméticos Avon. Primeira trans a estrelar em uma campanha de conscientização do câncer de mama – o Outubro Rosa. Primeira trans a apresentar um programa na televisão aberta no Brasil. E por aí vai.

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A banda As Bahias e a Cozinha Mineira segue o mesmo caminho. Dos sete integrantes, duas delas são mulheres transexuais. As duas vocalistas utilizam suas vozes como forma de resistência contra a transfobia e o machismo na sociedade brasileira. O álbum Mulher traz discussões importantes sobre feminismo, identidade de gênero e diferentes tipos de intolerância – inclusive a religiosa.

“Nosso som tem uma relação intrínseca com a nossa vida e o espaço onde a gente circula. E ele empodera, colocando as meninas como um espelho para as pessoas que querem viver à sua maneira e enxergam nas duas a possibilidade de pensar sobre seu próprio corpo e a sua vida.”

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A drag queen Pabllo Vittar estourou no ano passado com suas versões nacionais de grandes hits internacionais e conquistou rapidamente uma enorme legião de fãs. Além de fazer turnê por todo o país, Pabllo foi vocalista da banda do programa da Rede Globo Amor & Sexo e estrelou grandes campanhas publicitárias de marcas consagradas como Avon e Adidas.

A maquiagem hoje em dia não tem só como público alvo as mulheres, porque não discutir essa quebra de gênero?”

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E a lista de artistas que trazem à tona essas discussões sobre gêneros é enorme. Jaloo. Thassia Reis. Rico Dalasam. Johnny Hooker. Ava Rocha. BrisaFlow. Filipe Catto. Gloria Groove. Lia ClarkMahmundi. Deena Love. E a cada dia novos artistas conseguem espaço no cenário musical para alcançar milhares de pessoas que se sentem representadas por eles graças à Cauda Longa, que trata os consumidores como indivíduos com características, demandas e gostos específicos.

Saber identificar um nicho de consumidores e entender as carências e demandas desse nicho é a chave para que novos produtos possam ser distribuídos e consumidos de modo satisfatório por camadas cada vez maiores da população.

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Texto: João Vitor Marques

Capa: Bernardo Leal

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