Nosso reflexo em Black Mirror

Você acabou de acordar. O que faz primeiro? Pega o celular para ver a última notícia? Checa a novidade do momento? Ou já corre para ver as atualizações do Snapchat? Pode ser até mesmo que, nesse dia, o Facebook te lembrará daquela memória maravilhosa já quase esquecida de anos atrás.

Todos esses costumes da sociedade atual são apenas repetidos e incorporados por muita gente, muitas vezes, sem reflexão. Você já parou para pensar por quê tem agido desse jeito? A cada nova atualização, a tecnologia se torna mais íntima e não percebemos o seu impacto em nosso cotidiano e nos acostumamos muito fácil a ela. Já reparou como às vezes ficamos tão entretidos com o celular que esquecemos de tudo à nossa volta? Mudamos até o nosso comportamento em determinadas redes sociais, criando várias versões de nós mesmos, sem perceber.

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A internet facilitou [e muito!] o processo de comunicação, transformando o antigo modelo unilateral (um falando para muitos) em uma conversa em rede, onde todas as pessoas conectadas podem falar e ouvir mais naturalmente. Criamos, compartilhamos e recebemos muitos tipos de conteúdo, que vão desde os interesses da massa – acessível a todos – aos dos menores nichos – interesses mais específicos como “negras transsexuais no rap” ou “filmes do Tim Burton sem o Johnny Depp”. Interagir com pessoas de lugares e culturas completamente diferentes das nossas, em meios diferentes, modificou a nossa forma de pensar e agir. E é exatamente sobre isso que a Cibercultura fala: da influência das novas tecnologias e meios de comunicação na sociedade.

O britânico Charlie Brooker sempre foi muito fã da marcante série de ficção científica norte-americana “Além da Imaginação” (Twilight Zone) e fascinado por explorar o lado mais obscuro da mente humana. Juntando isso e observando as modificações de comportamento trazidas pela tecnologia, ele teve a ideia para uma das séries mais intrigantes da atualidade (ao ponto de no primeiro episódio colocar um primeiro ministro para… HAHAHAHAHA). E… olha… sua fascinação rendeu bons frutos, pois no dia 4 de dezembro de 2011 era lançado o primeiro episódio da série Black Mirror.

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Assim como em Além da Imaginação, Black Mirror traz a proposta de contar toda uma história em apenas um episódio. Sempre misturando ficção científica, thriller (misto de suspense, tensão e agitação psicológica) e drama, a cada sequência a série se torna mais sombria, profunda e reflexiva. Como o próprio autor fala, a série veio para [dar muitos tapas na cara] trazer uma análise de como a sociedade pode lidar com os avanços tecnológicos e até mesmo com as pessoas futuramente. Desde como enfrentamos o luto até pensamentos mais assombrosos, como a perda da nossa humanidade pelo excesso de aparelhos ao redor, Black Mirror busca explorar as possíveis emoções, sensações e futuros. Além do mais, esse é um assunto que já foi explorado em diversas outras obras como Matrix, Minority Report e Admirável Mundo Novo – todos aclamados pela crítica e pelo público.

Aliás, na entrevista abaixo, Brooker diz que a razão da série se chamar Black Mirror – Espelho Negro, em inglês – é porque a grande maioria das pessoas assistiria a série em um gadget (computadores, celulares, TVs, tablets) e ao final de cada episódio a tela ficará preta, se tornando um espelho negro. Ou seja, a série não é nada além de um reflexo de nossos hábitos atuais… Sinistro, não?  

Falando em escuridão, a Falácia da Caixa preta diz respeito a esse fenômeno. Ela diz que todos os conteúdos midiáticos serão transmitidos em apenas um  aparelho na sala de estar. Substituindo “caixa preta” pelos nossos computadores, TVs e principalmente smartphones, vemos que não estamos tão longe disso. Mas, como o próprio nome da teoria diz, é uma falácia. Ninguém desistiu do rádio quando a TV foi lançada. Podemos dizer, porém, que ele mudou de função, de espaço e, até mesmo, de plataforma – como diz Henry Jenkins, por meio da Cultura da Convergência.

A essência de Black Mirror é difícil de ser capturada. Mas em episódios como “Volto já” e “Urso Branco” temos uma boa ideia do que o autor quer transmitir. “Volto já”, primeiro episódio da segunda temporada, mostra a história de uma viúva que procura o conforto em uma nova tecnologia que permite os vivos se comunicarem com aqueles que já se foram. Isso, no episódio, é possível graças a softwares que analisam as atividades do defunto (durante a vida, claro) em suas redes sociais para criar uma cópia que representasse ele da melhor forma num bot (software feito para simular ações humana). Pode até parecer atraente de início, afinal de contas, é uma forma de amenizar a dor da perda. Mas com o desenrolar dos acontecimentos, percebe-se o quão perigoso é essa busca incessante pela felicidade. Também passamos a nos perguntar até que ponto a tecnologia realmente ajuda. E, claro, até que ponto é legal brincar de Deus.

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Já “Urso branco”, conta a história de Victoria. Após acordar e não se lembrar de nada da sua vida, ela pede ajuda a outras pessoas, porém nenhuma delas parece realmente a escutar. Todos à sua volta estão ocupados demais tirando fotos e fazendo vídeos dela com os celulares. Seria coincidência? Não precisamos ir muito longe para encontrarmos comportamentos parecidos com os dessas pessoas (basta ver as vídeo cassetadas das crianças enquanto os pais filmam sem fazer nada). Nessa história percebemos como as narrações de histórias reais têm caminhado para se transformar em ficção. Perceba como são muito delineados os papéis de cada um. Assistimos algo e nos ensinam de cara quem é o herói e quem é o vilão – como trata a Teoria Culturológica (estudo de uma nova forma de cultura na sociedade conteporânea, a cultura de massa). Outro fator que vale ser citado é a interferência dos Instagrams e Snapchats nos comportamentos. Os momentos passam a ter a obrigação de serem eternizados e compartilhados com todos – beirando à montagem de um momento inexistente (como uma foto super feliz na balada, sendo que você só queria ir pra casa dormir). Fatos como pessoas tirarem selfies no velório do ex candidato Eduardo Campos, são exemplos desse comportamento. Um dos episódios mais provocantes da série, ele gera uma reflexão sobre como a tecnologia e as mídias sociais vem alterando o nosso modo de interagir com o mundo, nos tornando apenas em personagens vivendo um grande show.

~ Achou interessante a transformação de pessoas em personagens? Que tal esse textinho sobre Nerve? Ele fala mais sobre isso. ~

Você deve estar super curioso para assistir Black Mirror, mas também deve estar pensando “Ah, mas já tenho tanta série para assistir!”. Caro leitor, trazemos ótimas notícias para você: o programa tem apenas duas temporadas, cada uma com apenas três episódios (e um especial de natal na segunda temporada)!

E a melhor notícia de todas é que agora está disponível na Netflix (que comprou os direitos da série) e o site de streaming já confirmou a terceira temporada que será lançada no dia 21 de outubro! Outra ótima notícia é: terá um filme baseado em um dos episódios!

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Nós sabemos que é impossível parar os avanços tecnológicos. Novos computadores e celulares serão inventados a cada instante na tentativa de suprir nossos desejos de conforto e entretenimento cada vez maiores. A cada novo avanço, percebemos que estamos mais perto da realidade apresentada em Black Mirror, na qual as pessoas dependem cada vez mais da tecnologia. Tanto que chegam a trocar a vida real por uma realidade virtual por meio de inovações cada vez mais próximas da realidade (alô? Pokémon Go? Maguss Wand? Realidade Virtual Imersiva?).

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A grande pergunta da série é: será que estamos preparados? Preparados para conviver com tecnologias tão avançadas? Preparados para enxergar que talvez a culpada de toda essa desumanização – da falta de contato entre as pessoas – talvez não seja a tecnologia, mas a própria humanidade? É possível que a respostas para essas perguntas não sejam as esperadas. Agora que você já sabe da existência de Black Mirror (essa obra prima da ficção do século XXI), se liberte das amarras das redes sociais e corra pra assistir. Depois venha aqui nos contar qual foi sua primeira reação à essa série tão impactante!

 

Texto: Bernado Leal, Lívia Reim e Natália Souza

Capa: Bernado Leal

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2 comentários sobre “Nosso reflexo em Black Mirror

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