Sobre memes e o Negão da Piroca

Aaaaah Muleeeequeeeee! Fuuuuuuu? Forever alone? Gretchen? Girls In The House? Alô alô, você sabe quem sou eu? O último pode até ser Inês Brasil, mas todos os citados são memes, não virais. Ao longo do texto será abordada a incorporação deles (dos memes) no nosso cotidiano, as teorias que explicam a extensão desse fenômeno cultural contemporâneo e a atemporalidade de um que sempre sobrevive nos esconderijos da sua mente. TAN TAN TAN TAAAAANNNNNN. Ficou mais confuso que a Nazaré? Calma que vou explicar melhor.

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O que é um meme?

O que muita gente ainda não sabe é que o termo meme não vem da internet, mas da genética. A sua origem fala de uma unidade de evolução cultural

Seria legal você lembrar um pouquinho das primeiras aulas de biologia, porque tudo começa com Richard Dawkins. Se baseando em teorias evolucionistas (como a Darwinista, a Mendeliana e a da Síntese Moderna), ele afirma que – do mesmo modo que as características físicas dos “mais evoluídos” (lê-se adaptados)  são passadas para a frente –  as características imateriais também o são. Trata-se de uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro.

O gene, na genética clássica, é a unidade primordial para a hereditariedade e é por meio dele que toda a genética clássica funciona. E, por ele ser responsável pela transmissão das características físicas para a prole, Dawkins batizou a unidade responsável pela passagem de características ideais de “meme” – a unidade de evolução cultural humana.

No caso, em vez do “meme” ser transmitido como os genes – fisicamente, por meio da divisão celular -, ele é transmitido por meio do convívio em sociedade. Sim, o meme é aprendido pela imitação. Não é à toa que a origem da palavra vem do grego “mimeme” (imitação). Ou seja, biologicamente, os memes são as coisas que você aprende e são evoluídas com o passar das gerações. A língua é um exemplo claro disso: não é passada por genes, mas  aprendida. O processo de fala passa pela mimetização. E em diversas culturas, a  maioria dos indivíduos são capazes de desenvolvê-la.

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Indo mais pro lado da comunicação, Susan Blackmore concorda com Dawkins em algumas coisas. Um meme pode ser uma ideia, um comportamento, um estilo ou um uso que se espalha de pessoa para pessoa dentro de uma cultura. Ou seja, tudo aquilo aprendido consciente ou inconscientemente: cultura; comportamento; sotaque; gastronomia; arquitetura; dança; Ieié e etc. Pegadinha do malandro. Todos memes. Nenhum depende de genes. E, diferente dos genes, o modo do meme se espalhar é exatamente pela repetição e pela adaptabilidade dele. O formato, às vezes, pode nem ser parecido – mas irá retomar a origem ou a ideia central daquele mimeme.

A cada vez que um meme é repetido, ele tem a possibilidade de ser absorvido por outra pessoa. Quase como um vírus (mas um vírus do amor, ô la la ô), ele vê qualquer um como uma máquina de fazer mais memes (vírus do amor), um degrau acima na escala de evolução, mais um que ajudará a reproduzir mais aquele mimeme. Sabe aquele bordão que sua amiga soltou com o maior entusiasmo e você não entendeu? Daí ela soltou de novo e você implicou outra vez… então você foi pra casa e, saindo com outro grupo totalmente diferente… bom… era você quem gritava “Ai que absurdo! Ai que badalo! Ai que horror!” com toda a felicidade. É basicamente isso. Só que sem parecer que os memes vão dominar o mundo.

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Daí, Limor Shifman, já mais voltado pro digital, diz que o meme é uma ideia passada como uma imagem, um texto, um som ou um vídeo: um fenômeno que se espalha rapidamente e que pode ser editado por todo e qualquer  internauta. Reparem: a ideia é o meme; a imagem, o som, o texto, o vídeo ou qualquer outro meio que o transporte é apenas o veículo. A sua forma de midiatização.

E, se vocês pararem para pensar, nenhum meme saiu dos próprios memes. Nenhum nasceu pronto como meme. Todos saem de outras mídias (TV, YouTube, Vine, etc) e convergem para o meme. A Glória Pires não sabendo opinar comentando o Oscar (assista aqui outra vez, novamente e de novo. O Para Nossa Alegria nos paranossaalegriando no YouTube. O Forninho da Geovana caindo em algum lugar desse Brasil e indo parar na internet. Reparou? Eles nascem de outros lugares e são midiatizados com um discurso próprio de fácil adaptação em diversas formas em diversos outros lugares (mas principalmente na internet).

Para evitar confusões,  meus caros e minhas caras: o meme é diferente do viral (apesar dele poder viralizar também). Qualquer mídia – vídeos e imagens são as mais comuns – pode viralizar na internet, mas isso não faz dela um meme. Ela só será mimetizada a partir do momento que a ideia for transmitida de diversos modos e por vários diferentes autores. Para Nossa Alegria é o exemplo perfeito. O vídeo, em si, viralizou com extrema facilidade. Mas – só depois de algum tempinho (talvez horas) – começaram a surgir os primeiros memes: “para nossa alegria”, “para Suéli” e “vou barrer a casa” foram originados dessa preciosidade internáutica.

 

E as Redes Sociais com os Memes?

As redes sociais (não necessariamente digitais, nem dependentes da internet ou de qualquer outra tecnologia) são uma estrutura social composta por pessoas ou por organizações que compartilham valores e objetivos comuns – interligados por um ou diversos tipos de relações. Elas ainda são de demasiada abertura, e possibilitam relacionamentos horizontais e não hierárquicos (é todo mundo igual a todo mundo). Ainda nessas redes, é possível averiguar o capital social da pessoa/organização – valor que os indivíduos obtém daquela rede social.

A estrutura descentralizada, horizontal e aberta, favorece o compartilhamento de informações, conhecimentos, interesses e esforços em busca de objetivos comuns. Isso é percebido diante do impacto que as redes sociais tiveram na Primavera Árabe. O Twitter, no contexto, era usado como veículo de marcação de encontros pelos ativistas e disseminar informações sobre o protesto. Já o Facebook, além disso, era palco de debates, organização dos eventos e postagens de fotos e vídeos. Enquanto o YouTube funcionava como armazenador e disseminador de conteúdo.

O caráter multiautoral das social medias acabam por ser o lugar perfeito para a disseminação dos memes. Se cada ser humano é uma máquina de memes, o internauta acaba sendo uma indústria, e as redes sociais um grande conglomerado (alô, Unilever). Pode-se dizer que o Twitter, devido às mensagens curtas, à linha do tempo (os tweets mais recentes são dispostos primeiro), à característica de segunda tela e à própria cultura dos usuários é o lugar mais propício para a origem de um meme – claro, aliado à rapidez dos aplicativos de mensagens instantâneas (como o Whatsapp) e a aplicativos de fácil edição de vídeo, imagem e voz. Programas como o Masterchef e o X Factor se destacam na ênfase que dão ao público da rede do passarinho azul.

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Cibercultura e os memes

A Cibercultura (Pierre Lévy) sugere exatamente o caminho que o meme segue. A teoria visa explicar como os crescentes avanços em comunicação e tecnologia da informação impactam a sociedade e o comportamento do indivíduo. Seus principais pilares pregam que todo computador está em rede (o ambiente de amplificação das redes sociais e o surgimento das digitais); que qualquer um tendo acesso ao computador e à rede pode criar (os múltiplos autores que os memes precisam para se repassar); e que nenhum veículo – rádio, TV, vinil – morre, mas é readaptado e reinserido em um novo meio.

A condição de existência dos memes é exatamente a participação e mimetização de todos os que puderem ser alcançados. Eles são conhecidos como os viralizados (diferente de virais). Um ambiente descentralizado e horizontal é a base para eles se espalharem. E as redes sociais atuais são o lugar perfeito para isso.

Os usuários de redes sociais estão totalmente dentro do universo da interação e produção de conteúdo. Eles anseiam por isso. Muitas marcas passaram a aproveitar as redes sociais como espaço de diálogo com os consumidores por conta disso. E os memes aproveitaram esse anseio para sair por aí.

Ponto Frio cumpre o #DesafiodoGelo

E lembra que nenhum veículo morre? Espere até surgir um novo. Pode apostar que os memes vão aparecer por lá também. Já existe pegadinha de susto em realidade virtual… por que (porque?) não um meme invadir também?

A Convergência e os memes

Já foi dito que os memes podem ser representados em diferentes extensões (escrita, sons, vídeos, imagens, gifs…). A convergência (Jenkins) estuda as interações de diferentes mercados midiáticos e o caminho e as conexões que o consumidor faz em busca dos conteúdos espalhados por eles. A convergência não ocorre nos meios, mas sim nos cérebros das pessoas. E é isso o explorado pela mimética. Um meme pode estar dividido em diversos meios e só será compreendido na totalidade quando todas as suas partes forem observadas.

A cada episódio de The Walking Dead, de Game of Thrones e de Masterchef, é uma nova fornada de memes que sai. A Cultura Participativa observa a insaciedade dos consumidores de conteúdo em apenas observar. A vontade de participação (desculpa a obviedade) é enorme. E com as novas fornadas de memes, surgem as teorias sobre o que ocorrerá nos próximos episódios e nas próximas temporadas.

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O último fenômeno citado no último parágrafo já remonta à Inteligência Coletiva. Os fóruns são um grande exemplo da construção do saber por meio da coletividade. O Twitter, exemplo de construção do saber pela coletividade é um antro de formação de memes, também. Por meio dele, descobriu-se as milhões de forma de se falar que está cansado com a Luciana Gimenez, e até como eram os famosos quando anônimos, né non, Neymar e Anitta?

Mas, claro, a Inteligência Coletiva também fez as montagens com a Nana Gouvêa (que tem um Tumblr próprio… só disso).

nanagouveaemdesastres: “ Furacão Sandy, Nova Iorque (2012). Siga no Facebook. ”

Muito antes de Nana Gouvêa e o furacão, Avatar já sensualizava os Smurfs para o mundo (mas aí tudo bem, porque mostrar peito azul não dá nada) em um filme que gastou todos dólares em efeitos culhudos e teve que reciclar o roteiro de Dança com Lobos...

Nossa heroína na Faixa de “Gaze”. Siga-nos no Facebook.

Quase que a Nana pega o pênalti que o Neymar isolou contra a Colômbia,

A Cultura brasileira e os memes

Bom, não tem muito o que dizer… já vencemos as Guerras Memeais contra PortugalArgentina, Espanha Estados Unidos.

O Brasil é conhecido internacionalmente pela diversidade de povos, de credo, de etnias, de costumes, de tradições e de culturas reunidas em um único território. Tais fatores, juntamente com o histórico político-sócio-econômico daqui, geram diversas realidades que subvertem, mesclam  e estereotipam a identidade e o papel de determinada população.

No livro Contágio, Berger cita vários vídeos criados por marketing para viralizar e vídeos aleatórios que não tinham a mínima intenção de fazê-lo, mas o fizeram. E, para explicar os motivos relacionados ao sucesso de cada um, Berger usa de seis fatores: moeda social (compartilhamos coisas que geram uma boa imagem para nós), gatilhos (estímulos mentais que incitam as pessoas a pensar em coisas relacionadas), emoção (quando nos importamos, compartilhamos), público (quando algo é mais observável facilita que sejam imitados e aumenta-se a sua popularidade), valor prático (as pessoas gostam de passar informações práticas e úteis adiante, novidades) e histórias (uma boa informação pode vir dentro de uma boa história). 

Sendo o vídeo uma espécie de história contada; e as narrativas (escritas, sonoras, imagéticas…) um lugar onde memes (a ideia passada por meio de extensões) nascem, pode-se utilizar dos mesmos fatores de Berger para avaliar a extensão de alcance dos memes. Visto que, até para o entendimento completo do mimeme, é necessário o conhecimento prévio da origem ou um contexto – onde se dão as narrativas que o antecedem.

Normalmente os vídeos virais são vistos como engraçados pelo modo medonho de serem feitos. E Frugoli fala do quanto é necessário prestar atenção no gosto pelo incorreto desenvolvido pela sociedade. É algo como um prazer culposo (aquela escapadinha durante a dieta) que se sacia apenas ao observar o grotesco. A diversão no estranho está em ver outras pessoas serem expostas – coisa muitas vezes mascarada pelo humor. Não importando se existe uma pessoa sendo exibida ou humilhada, mas sim a audiência gerada e o entretenimento dos terceiros. Lembrou de Black Mirror?

Ao observar tais pontos de vista, podemos entender a origem e a legião de compartilhadores do “Negão da Picona”. Não só no Brasil o negro assumiu um caráter estereotipado e de mito social. A objetificação e sexualização deles passaram a ter tamanha solidez na cultura brasileira que deformaram seus corpos. A “mulata” é hiperssexualizada pelas suas curvas; o “mulato”, pelo seu dote.

Este mito contemporâneo obteve um alcance enoorme nos grupos de Whatsapp, no Twitter e no Facebook. Isso comprova a extensão de uma narrativa densa e avantajada que foi trabalhada desde a vinda dos negros africanos para cá até a convergência desta entidade cultural para a mídia –  sendo ela novela, piadas, show de humor, pornô e etc. Tamanha foi ela que a reversão desta figura emblemática, o “negão da piroquinha”, também é motivo de humor pelo claro rompimento com a narrativa social instaurada.

Extensão do Meme do Negão da Piroca interagindo com o movimento Novembro Azul (feito por um anônimo)
Extensão do Meme do Negão da Piroca interagindo com o movimento Novembro Azul (feito por um anônimo)

negooO alastramento desse figurão foi realmente grande. Ele ganhou um álbum online com as variantes piadas (cuidado, parece ter vírus e conteúdo explícito +18 only), gifs diversos, uma fantasia e até uma entrevista (com teor claramente humorístico).

 

E você aí achando que tudo é só um meme. 

 


Texto: Bernardo Leal Sampaio

Capa: Bernardo Leal Sampaio


Referências:

http://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-2479-1.pdf
http://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-2626-1.pdf
http://www.portalintercom.org.br/anais/nordeste2015/resumos/R47-1454-1.pdf
http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2012/resumos/R30-0750-1.pdf
http://www.fazendogenero.ufsc.br/7/artigos/W/Waldemir_Rosa_18.pdf
http://www.generonaamazonia.ufpa.br/edicoes/edicao-6/artigos/7_Prazeres_Incomodos.pdf
http://www.mundorama.net/2012/11/06/o-papel-das-redes-sociais-na-primavera-arabe-de-2011-implicacoes-para-a-ordem-internacional-por-viviane-brunelly-araujo-tavares/

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