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Venere no Altar de RuPaul!

“Se você não consegue amar a si mesmo, como diabos você vai amar outra pessoa?”. Essa é uma das (muitas) frases icônicas do ator, modelo, cantor e autor RuPaul Andre Charles. Mais do que isso, RuPaul é uma das drag queens mais famosas e influentes de todos os tempos. E – graças à Cultura da Convergência, à Cauda Longa e à atenção aos fãs – o sucesso da Mamma Ru e do seu Reality Show só cresce. Mas antes de explicar o porque desse poder todo, vamos entender o conceito de drag queen.

RuPaul's Drag Race rupaul finale logo tv ruapuls drag race

Drag queens são personagens criadas por artistas que se vestem com roupas estilizadas femininas com propósito artístico e, geralmente, profissional. E o contrário também existe! Drag kings se travestem com figurinos personalizados masculinos. Diferente do que a maioria pensa, tais práticas não possuem limitações ligadas ao gênero ou à orientação sexual. Qualquer um pode ser o que quiser.

Lá no século XIX surgiram os primeiros relatos de homens que saíam às ruas vestidos de mulher. Frederick Park e Ernest Boulton chocaram a sociedade londrina da época ao saírem de casa com vestidos longos e adereços femininos, denominando-se Fanny e Stella. Na época, foi realizada uma investigação minuciosa por parte da polícia, que, apesar de revoltada, não conseguiu provar a prática de crime algum.

Já no final do século XIX e início do século XX, homens vestidos de mulheres começaram a ser amplamente aceitos dentro do ambiente teatral. Inclusive, esses atores eram mais respeitados do que as próprias mulheres da época que desejavam seguir carreiras semelhantes no teatro. Uó, né?

Até então, crossdressers (homens travestidos) não eram associados à orientação sexual. Isso só foi começar a mudar lá em 1920, quando os “drag balls” – eventos voltados para a comunidade LGBT onde a maioria dos homens iam travestidos – surgiram. Como na época o cross-dressing era considerado uma ofensa, e a homossexualidade um tabu e uma ameaça para a sociedade, esses eventos precisaram ser cada vez mais escondidos.

Pulando para os anos 60. Ampla circulação da pílula anticoncepcional. Diminuição das restrições sobre a homossexualidade. Pop Art. Estes fatores levaram à chamada Revolução Sexual, período no qual os principais códigos tradicionais ligados à sexualidade passaram a ser questionados no mundo ocidental. Nesse tempo, os jovens homossexuais, assim como os heterossexuais, passaram a formar suas próprias identidades culturais por meio da música, da moda e das gírias. Na época começaram a ser construídos bares e casas noturnas em regiões periféricas (longe das famílias de “bons costumes”) voltadas para o público gay, também, e os drag balls foram cada vez mais ampliados.

A partir dos anos 70 e 80, as drags passaram a ocupar espaços além das aparições em bares temáticos, como a rádio, a televisão e o teatro. Alô, Dolly!, Priscila, A Rainha do Deserto, A Gaiola das Loucas e Paris is Burning são exemplos de produções que abordaram o tema.

E foi nesse contexto que RuPaul surgiu. Iniciou sua carreira nos anos 80 como ator e diretor de filmes underground. Mas foi na música, nos anos 90, que Ru estourou. Após se apresentar em diversas boates de Nova York e aparecer em programas de televisão, lançou seu primeiro single, Supermodel (You Better Work), que inesperadamente se tornou um hit nos EUA e no Reino Unido. O sucesso do single contribuiu para que RuPaul se consolidasse na cultura popular por meio de parcerias com artistas como Elton John e Martha Wash, e marcas como a MAC Cosméticos. Mais tarde, Charles passou a apresentar seu próprio talk show no canal VH1, The RuPaul Show, onde entrevistava diversos artistas e celebridades.

gif do clipe da RuPaul, supermodel

No final dos anos 90, os reality shows – programas televisivos protagonizados por pessoas reais – começaram a ser amplamente difundidos e, no começo dos anos 2000, viraram febre em todo o mundo. RuPaul, aproveitando-se desse movimento, começou a produzir seu próprio reality em 2008.

2009. “RuPaul’s Drag Race” estreava no canal norte-americano Logo TV. No reality apresentado por Charles, drag queens de todos os cantos dos Estados Unidos competem pelo título de próxima superstar. Para vencer, participam de desafios semanais mostrando suas habilidades artísticas como dança, atuação e costura. As performances são julgadas por um painel fixo de jurados em cada temporada, e jurados convidados (mudam a cada episódio) como atores, designers, cantores, comediantes e celebridades.

Durante a temporada, o grupo de drag queens é submetido a desafios semanais alinhados à desfiles temáticos na passarela do programa, quando são julgadas pelo painel de jurados. No final, as duas drags com piores desempenhos “dublam por suas vidas” músicas previamente escolhidas, sendo uma delas eliminada. No final da temporada, além do título, a queen vencedora ganha uma quantia em dinheiro e a oportunidade de expôr seu trabalho mundialmente.

Apesar de não ter o mesmo alcance de outros reality shows similares, como America’s Next Top Model e Project Runway, o show, que já conta com 8 temporadas e 2 spin-offs (programas derivados de outras obras já existentes), é a maior audiência do canal Logo TV. Hoje, Drag Race é distribuído para diversos países, como Austrália, Canadá, Reino Unido e Brasil, além da plataforma de streaming Netflix.

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O programa, que vai ao ar em um canal com foco no público LGBT, conseguiu alcançar sucesso ao despertar o interesse do “pequeno” público a que se destina. Isso ocorreu graças à Teoria da Cauda Longa, idealizada por Chris Anderson, que defende a economia baseada cada vez mais na cultura de diversos nichos e se afaste dos poucos hits. Dessa forma, carências e demandas podem ser mais facilmente identificadas e supridas por públicos consumidores cada vez maiores.

Incluído também na Cultura da Convergência, RuPaul’s Drag Race é produzido para a televisão e fortemente consumido através do compartilhamento informal de downloads. Na maioria das vezes ilegal, tal prática possui papel fundamental na popularização do reality show, já que seu conteúdo passa a ser amplamente discutido, compartilhado e ressignificado em forma de novos conteúdos por meio de redes sociais, blogs e fóruns. Dessa forma, o show se estabelece como um fenômeno não só midiático, mas cultural.

Parte do sucesso do Drag Race se deve à possibilidade de conexão e interação que foi proporcionada ao público via Internet. E essa interação é tão forte que passou a influenciar no conteúdo do próprio programa. Nas últimas temporadas, por exemplo, Ru passou a ouvir a opinião do público através de hashtags no Twitter na hora de decidir quem levaria o título de vencedora. Dessa forma, o público sai da posição passiva de telespectador para participar efetivamente do processo do show. Nada mais justo já que são eles que consomem aquele conteúdo, né?

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E graças à toda essa interação, que possibilita uma popularidade cada vez maior do programa, a cultura drag é amplamente difundida e aceita, servindo como plataforma de valorização do trabalho de diversos artistas e identificação por parte do público que, de alguma forma, compartilha dos mesmos valores expostos pelo Drag Race.

Hoje, as drags que participam do programa adquirem status de celebridades no meio em que estão inseridas, gerando materiais próprios como álbuns, videoclipes, vlogs, filmes e turnês. A cada temporada, a audiência cresce e surgem novos conteúdos por parte dos consumidores, como fóruns de discussão e memes que chegam a ser utilizados até por quem não assiste o game show.

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E todo o trabalho que RuPaul e sua equipe tiveram para dar visibilidade para a cultura drag foi recompensado: esse ano, 2016, Ru venceu o Emmy (prêmio de maior importância para a televisão mundial) de melhor apresentador de reality show. Mas ele garante que o mais importante não é o troféu em si (apesar de ser divertido pisar nas inimigas), mas a possibilidade de fornecer uma plataforma de visibilidade para mais de 100 queens até então.

Todo mundo sai ganhando com isso tudo: Ru, que está cada vez mais poderosa; as drags, que têm a oportunidade de vender seus trabalhos; e a gente, que pode apreciar o talento dessas rainhas! Can I get an amen?

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Texto: João Vitor Marques

Capa: Bernardo Leal

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2 comentários sobre “Venere no Altar de RuPaul!

  1. Estou buscando novos blogs que falem de moda aqui no WordPress e estou feliz de conhecer ser espaço!
    Parabéns! Blog super clean e ótimos posts. Sempre gosto de conhecer novos colegas da blogosfera… assim vou aumentando minha rede, e claro, conhecendo sobre diversos assuntos e até mesmo cultura.
    Bom, já estou seguindo para não perder as novidades. Sucesso.

    Estendo aqui o convite para conhecer o meu blog… Ficarei contente com sua visita! 🙂

    HuG! 😀

    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter
    📸 Instagram: @andrehotter

    Curtir

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