“13 Reasons Why” e sua relação com bullying e o suicídio na adolescencia

Qual seria sua reação ao saber que pode ser, em parte, responsável pelo suicídio de alguém que se fazia presente em seu cotidiano? O que faria se escutasse isso da própria vítima? E o que faria para que o mesmo não acontecesse novamente?

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Assim começa a nova série da Netflix13 Reasons Why”, que é destaque neste semestre, abordando os temas suicídio, bullying e relacionamentos interpessoais. A nova produção, que é tida como a mais popular da plataforma até o momento, se baseia no livro de mesmo nome escrito por Jay Asher (2007) e tem chamado atenção de diversos públicos por tratar de assuntos que, muitas vezes, são banalizados pela mídia.

A obra conta a trajetória de Hannah Baker, uma garota que acaba de chegar na cidade (sem nome) e já faz parte de diversas e horríveis experiências, que levou, junto a condições psicológicas e contextos desfavoráveis, a personagem a cometer suicídio (não é spoiler, galerinha). Porém, antes de morrer, a garota grava sete fitas cassete, com treze lados completos, cada um contendo o nome de um dos responsáveis e o motivo de estarem sendo citados.

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A história se desenrola quando Clay Jensen recebe a caixa com as fitas, semanas após o acontecido. Ao escutá-las, Clay revive, diversos momentos, pois estava presente em grande parte das situações. Dessa vez, porém, pela ótica de Hannah.

Quando questionado sobre o que despertou sua motivação pelo tema, o autor responde: “Uma parente próxima tentou o suicídio quando ela tinha a mesma idade de Hannah Baker. Como ela morava perto, tivemos a oportunidade de discutir como ela chegou ao ponto de pensar que terminar sua vida era a única maneira de acabar com a  sua dor. Mas isso aconteceu nove anos antes de eu ter a ideia para o meu livro”.

Por sua relação direta com o Bullying, a trama trata com seriedade um tema que, por ser visto com muita frequência, passou a ser tratado pela mídia como algo fútil, corriqueiro e sem a atenção merecida. O Bullying é definido, de maneira breve, pelo Dr. Dan Olweus (pioneiro em pesquisas sobre o assunto), como “agressão física e/ou psicológica sofridas repetidamente ao longo do tempo, por um ou mais agressores, com o intuito de causar danos  ou mal-estar à vítima”.

Dr. Oweus também apresenta alguns critérios, com intuito de reforçar sua definição. São eles:

1) A intencionalidade do comportamento: ou seja, o agressor tem realmente a intenção de agredir.

2) O comportamento é conduzido repetidamente e ao longo do tempo: a frequência em que as ações acontecem é uma grande característica do assunto.

3) Há um desequilíbrio de poder no centro da dinâmica: normalmente o agressor vê sua vítimas como alvo fácil, tendo a sensação de superioridade.

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Se você ainda não enxerga a grandeza dessas agressões, esse texto realmente é para você. Continue lendo e tente ver além do que lhe foi ensinado erroneamente pela sociedade, como “é só uma zoeira”.

Essas agressões, que são vistas como fúteis por muitas pessoas, têm certa recorrência  na mídia. Mas o tema não costuma ser aprofundado. O que resulta na “notificação” do problema, mas não no “entender”.

Neste cenário, a obra dá ênfase à importância do assunto, conectando o bullying com sintomas depressivos e suicidas – tema central da série. Muitas vezes, a triste decisão da personagem é vista como única saída para pessoas com os mesmos sintomas – principalmente os jovens, grandes vítimas das ações e pensamentos abordados na série – com objetivo de dar fim aos problemas.

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Se com os pontos apresentados até aqui, você ainda não acredita na seriedade do assunto, aí vai um pouco de estatística:

Sobre o bullying, uma pesquisa sobre a saúde do estudante brasileiro, realizada pelo  IBGE, afirma: quase a metade dos alunos entrevistados (46,6%) diz que já sofreu algum tipo de bullying ou se sentiu humilhado por colegas da escola. A maioria (39,2%) afirmou que tem a mesma sensação às vezes ou raramente e 7,4% disseram que essa humilhação acontece com frequência, e entre os principais motivos está a aparência.

Comparando a pesquisa anterior, feita em 2012, o número de casos de alunos que relataram já ter se sentido assim no colégio aumentou. Em 2012 eram 35,3%, esse número subiu para 46,6% em 2015.

Já sobre o suicídio, segundo reportagem feita pela BBC, para muitos especialistas, o suicídio juvenil tem contornos epidêmicos. E, para a Organização Mundial de Saúde,  esta epidemia precisa “deixar de ser tabu”: segundo estatísticas do órgão, tirar a própria vida já é a segunda principal causa da morte em todo mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade – ainda que, estatisticamente, pessoas com mais de 70 anos sejam mais propensas a cometer suicídio.

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A página Eurekka fez alguns posts com artes sobre itens importantes sobre o suicídio, relacionando o tema da série e as estatísticas citadas anteriormente:

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Voltando ao público jovem – massa dos espectadores da série – constantemente na internet, são vítimas/agressores do famoso cyberbullying, em que meros detalhes, descuidos e má intenções podem ter proporções mundiais. O assunto já foi discutido por nós aqui, aqui e aqui . Essa ação é uma das precursoras para que o tema “bullying” viesse a tona. Seja pela facilidade de agressão, já que costuma-se agir como se a internet fosse “terra de ninguém” – onde os  rostos ficam escondidos, dando as sensações de poder e de impunidade, como se fosse possível fazer o que quiser sem ser identificado ou ser dizer e agredir quem quiser.

Exemplos dos danos que isso pode causar não faltam. Garotas que tiveram a intimidade exposta acabam precisando mudar de cidade para fugir do transtorno. Ou uma pessoa que é agredida psicológica e fisicamente sobre sua aparência desde sua infância e desencadeia doenças como bulimia, anorexia, depressão ou cutting (causar cortes no próprio corpo).

Acontecimento recente, que recebeu muita atenção (necessária) da mídia foi um crime de cunho racista, praticado através das redes sociais, contra a filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. Através de comentários como “lugar de preto é na África”, a agressora, uma garota de apenas 14 anos, foi encontrada pela polícia, após investigações e confessou a ação. Muitas vezes os ciberbullying acontece com alvos aleatórios, com o único intuito de causar danos à outras pessoas.

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Relacionando com a série e pensando em mostrar exemplos mais próximos do público, a Netflix publicou um campanha de divulgação com vítimas reais, contando suas experiências sobre o assunto, com grandes influenciadores como Hugo Gloss (Bruno Rocha) e ThaynaraOG, pondo em prática a ideia de que todos nós podemos ser uma vítima. Assista aqui.

Com o advento da cibercultura e popularização das tecnologias de comunicação, o resultado geral era o isolamento dos usuários do meio físico. Mas, com bullying, está acontecendo o contrário: o físico e o virtual estão se misturando de maneira grandiosa e negativa, possuindo uma ordem crescente no sentido redes sociais até o físico.

Um exemplo sobre o tema é o jogo “Baleia azul”. O esquema consiste em atividades absurdas estabelecidas por grupos no Facebook e começou a se espalhar primeiro na Rússia. Os jogadores, através de vídeos, concluem as “fases”, que vão desde escutar músicas psicodélicas e depressivas à automutilação, tendo como desafio final tirar a própria vida.

Alguns critérios são impostos aos jogadores, como dito, gravar as ações, ter um tempo determinado para receber, fazer e postar e, por último, não é aceitável a desistência do jogo, caso contrário, familiares e amigos, teoricamente, são ameaçados de várias maneiras.

No Brasil e até mesmo no Espírito Santo, alguns grupos já se formaram nas redes sociais. Um caso de uma suposta jogadora e, infelizmente, vítima, já está sendo investigado em Cuiabá. Maria de Fátima, de apenas 16 anos acabou cometendo suicídio e, segundo a polícia, pelas evidências encontradas, tudo indica que ela participava do jogo.  😥 

Segundo psicólogos, geralmente, os jovens que estão entrando no “jogo” já possuem uma predisposição à depressão e ao suicídio e usam o desafio como gatilho ou justificativa para cumprir o ato. 

No cinema também vimos o uso de uma premissa similar no filme “Nerve – um jogo sem regras”, que comentamos em um post aqui.  A  diferença é que na trama os participantes jogam por dinheiro e suposto reconhecimento mundial, pois o jogo pode ser assistido pelo público via streaming.

Apesar de tratar dos assuntos, não podemos ignorar o  fato de que os meios de comunicação, principalmente a dramaturgia, tende a “romantizar” os atos apresentados. Isso reflete de forma negativa, pois sai do ponto de vista de aviso, precaução e ajuda, para o lado de que essas ações são, sim, consideráveis e aceitáveis dependendo da perspectiva da história.

O lado romântico, como dito, não deve ser o mais citado, e muito menos como referência, pois o resultado, em espectadores que já possuem certa disposição para tal ato, é tido como influenciador e idealizador da ação.

Além da cibercultura, podemos associar este tema com a teoria do Newsmaking (as notícias são como são porque a rotina industrial de produção assim as determina), que com ou sem o objetivo, a Netflix conseguiu colocar em pauta, de maneira séria e bem gráfico-explicativa o assunto central da trama. Através da liberação e popularização de 13 Reasons Why, o público que mais agride e sofre com o assunto, que são os jovens, terão a oportunidade de ver e sentir “na prática” o que suas ações podem causar. Pode-se gerar uma espécie de comoção sobre o tema, colaborando para o aumento da empatia perante o outro, proporcionando um meio de apoio em um lugar que está sendo usado por muito tempo como um palco de julgamentos: a internet.

Você já deve ter percebido que este texto não é apenas uma resenha sobre “a série do momento”, mas sim um informativo, para que possamos colaborar para que alguém, que esteja em uma situação parecida, opte pelo pior caminho. Pensando assim, a Revista Galileu sita 6 sinais de uma pessoa com comportamentos suicidas, que pude interpretar e colocá-los aqui, são eles:

1 Frases de alarme: segundo a ONG Centro de Valorização da Vida (CVV), o serviço de atendimento pelo telefone já atendeu milhares de ligações de pessoas que pensavam em suicídio. Algumas das frases mais comuns ouvidas por funcionários da instituição foram “Não aguento mais!”, “Eu queria sumir!” e “Eu quero morrer!”. Muitos tem a ideia de que quem fala demais em suicídio está apenas “fazendo drama” e não dão a atenção necessária. Devemos nos voltar para essas pessoas, não com olhos de julgamento, mas sim com olhos de atenção e compreensão.

2 – Mudanças inesperadas: não que toda mudança na vida da vítima será o único e crucial motivo para um suicídio, mas ela pode sim, desencadear os pensamentos ou até ser o estopim, o auge dos pensamentos depressivos de uma vítima. Perda de um parente próximo, ser demitido de um emprego que tenha se dedicado muito, acontecimentos trágicos de maneira geral, são exemplos tecnicamente drásticos, mas muito comuns. As mudanças inesperadas também refletem no quesito comportamento, como uma pessoa que era muito vaidosa perder o hábito repentinamente ou alguém que costumava ter uma vida muito ativa (exercícios, amigos, festas)  e passa  a se isolar, estes possuem grande conexão com ações depressivas e, possivelmente, suicidas.

3 – Depressão e drogas: uma das conexões mais corriqueiras nesses casos, funciona numa linha de raciocínio à partir da pessoa com depressão, que tende ter o objetivo de não sentir nada, como se estivesse morta por dentro. Forte isso, não? Pois é, através dessa relação as drogas entram na vida de uma vítima da depressão, que através da experiência de vazio (tanto pela doença, quanto pelos químicos ingeridos), acaba não sendo suficiente, o que o leva ao último estágio dessa “busca”: o suicídio.

4 – Pode não ser só aborrescência: este tópico se trata da idéia que temos da depressão e suicídio, que apenas adultos tem, e que os adolescentes só estão passando pela “aborrescência”, dando a desculpa de serem apenas os hormônios atacando. Porém isso não é verdade, segundo o site, houve um aumento de 30% do índice de suicídios entre os jovens brasileiros. Então, deixamos claro que os sintomas apresentados tanto no texto, quanto na lista, devem ser observados em todo tipo de faixa etária.

5 – Preto no branco: esse tópico é uma expressão que costumamos ouvir nos filmes, que a vida perde seu sentido, seu colorido. Pois bem, podemos colocar a mesma nos sentimentos depressivos, que ainda é o maior e mais característico dos sinais de uma vítima possivelmente suicida.

6 – Bom demais para ser verdade: segundo a revista, “um caso que marcou o psiquiatra d’Abreu foi o de um paciente muito deprimido que simulou uma melhora para passar o final de semana em casa e, lá, usar uma espingarda para se matar. A simulação de melhora é comum em diversos casos de suicídio, então, se uma pessoa que normalmente é deprimida parecer subitamente alegre, é importante acompanhá-la para garantir que ela não tentará o suicídio”.

Com isso, nós do NCD fazemos um apelo: se você é ou conhece alguém com ações, sintomas e precedentes iguais ou similares aos citados anteriormente, não hesite em buscar ajuda, seja com profissionais, parentes ou amigos. Não se isole ou afaste quem se encontra neste caso, guie, seja o arco-íris de alguém que só vê o preto e branco (frase meio brega, mas necessária, né?!).

Segue abaixo sites, ONGs e chats que podem ser buscados para mais informações do tema e, sem dúvidas, para ajuda, mas não deixe de lado a colaboração de familiares, amigos e profissionais da área, como psicólogos e psiquiatras:

www.sociedadeamigosdavida.org.br

www.itgetsbetter.org

www.cvv.org.br – tel: 141

-Suporte por bate-papo: http://www.cvv.org.br/chat.php

 

Texto: Sérgio Zani.

Arte da capa: Aline Passos Silva.

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