No Mundo de Mallu Magalhães 

Preciso de vocêêêêê pra me fazer felizzzzz não quero mais ficar aaaaaAaaaquiiiii! MySpace, Maria Luiza de Arruda Botelho Pereira de Magalhães ou, como é conhecida artisticamente, Mallu Magalhães é cantora, compositora e instrumentista brasileira que aos quinze anos começou uma carreira de sucesso, inicialmente, impulsionada pela internet.

Estávamos em 2008 e o “boom da Internet” dava cenário a um momento de informação e conexão em rede, o número de internautas residenciais no Brasil atingia 22 milhões de pessoas e marcava-se um aumento de 56,7% em relação a 2007. O acesso à internet, que até então era predominante entre pessoas com alto nível de escolaridade e de classes mais altas, com esse boom, cresceu nas outras classes. Acessos eram feitos em casas, em lan-houses e em locais de trabalho. As pessoas estavam entrando cada vez mais no ciberespaço, que é definido por Pierry Levy como “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. Isto é, o meio em que se transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização.

O acesso entre os jovens tinha crescido e esse grupo dominava as estáticas relativas a usuários ativos na rede. Compondo esses dados, estava a ingênua menina Mallu Magalhães. Que foi bem esperta (e, talvez, um pouquinho sortuda): surfou, literalmente, a onda da internet.

Com influência de Bob Dylan, Johnny Cash e muito Rock Clássico em seu repertório musical, Mallu se mostrava apaixonada por música desde a infância quando se debruçava sobre os CD’s e LP’s dos seus pais e avós. E vibrava com as composições e arranjos expostos. Aos nove anos, a amante musical aprendeu sozinha a tocar violão e, então, o seu gosto expandiu para instrumentos diversos: banjo, gaita, escaleta, piano, e  ukulele. Aos doze anos, começou a compor suas próprias músicas, que deram início a uma história de sucesso e a uma bela exemplificação das 3 leis da Cibercultura propostas por Pierre Levy.

Aos 15 anos, em 2007, Mallu Magalhães tomou a sábia decisão de juntar dinheiro e gravar quatro de suas músicas. Essas faixas foram disponibilizadas na internet por meio do MySpace, uma rede social, criada em 2003, que  gerava um espaço interativo de fotos, blogs e perfis de usuário. Essa rede já foi uma das mais famosas do mundo e a jovem se aproveitou também desse momento de ascensão do site para divulgar suas composições. A plataforma ainda contava com um espaço interativo próprio para artistas compartilharem seus trabalhos musicais e estabelecerem conexões com pessoas que estavam atrás de novos formatos e estilos de música – o que aproximou ainda mais as composições da Mallu desse público.

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E não deu outra: as músicas foram sucesso e garantiram à jovem muitos acessos, premiações e espaço em grandes palcos. Do mundo virtual para o mundo real, a menina anônima da Internet passou a cantar com profissionais da música brasileira, abrir shows de grandes bandas e participar de diversos programas televisivos – dividindo palco com protagonistas de grandes emissoras, como o grande Jô. Os jornais e as revistas (impressas e eletrônicas), agora, davam espaço ao fenômeno da Internet que invadiu a real life.

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O sucesso disparado de 3 das 4 faixas disponibilizadas (Tchubaruba”, “J1” e “Get To Denmark”) e a forma como a jovem interpretava os seus ídolos (Bob Dylan, Johnny Cash) atraíram os olhares dos críticos da mídia, mas, mesmo diante de tanto talento, o acesso a esse fenômeno deveu-se prioritariamente à internet. Em seguida o caminho para o álbum próprio ficou fácil. Depois de dois milhões de acessos, em menos de um ano, a cantora lançava seu primeiro disco com músicas inéditas. Ele foi gravado em um grande estúdio do Rio de Janeiro, contava uma composição exclusiva de equipamentos vintage que deram origem a faixas estilo folk e pop rock com belas melodias e arranjos bem feitos. A obra foi bem recebido pelo público e pela crítica especializada, alcançado boas vendas quando a cultura do mp3 e do download de músicas (quem lembra do emule?) se estabelecia cada vez mais. Logo que lançadas, as faixas,claro, também podiam ser baixadas via celular e no site oficial do disco. Fazendo jus à sua origem.

Mallu Magalhães e a Cibercultura

De acordo com Pierre Levy (1999) a cibercultura entende-se como a expressão da aspiração de construção de um laço social. ”A reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de colaboração. O apetite para as comunidades virtuais encontra um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais são os motores, os atores, a vida diversa e surpreendente do universal por contato”. O Ciberespaço dá origem ao um novo local de interação entre os atores sociais que junto estabelecem comunidade de um laço social.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, André Lemos propõem no artigo Cibercultura e Mobilidade – A Era da Conexão, a configuração de três leis da cibercultura: Reconfiguração (reconfigurar práticas, modalidades midiáticas, espaços, sem a substituição de seus respectivos antecedentes), Liberação do pólo de emissão (diversas manifestações socioculturais), e a Conectividade (a conectividade generalizada põe em contato direto homens e homens, homens e máquinas e  máquinas e máquinas).

Trazendo essas abordagens para o exemplo do nosso fenômeno da Internet, aplica-se perfeitamente as três leis propostas pelo autor quando se percebe uma nova forma das pessoas consumirem e se comportarem frente aos avanços tecnológicos encontrados no ano de 2008. As pessoas estavam diante de uma nova tecnologia e ansiosas para consumir esse novo recurso. Isto é, as pessoas passaram a consumir música pelos computadores, passaram a pesquisar novos artistas e gêneros musicais – até então não encontrados em lojas de CD’s, pela orientação para os hits (onde estava, Cauda Longa?). Uma nova reconfiguração das práticas e dos formatos sociais se estabelecia com essas expressões.

Na mesma linha, percebemos no exemplo da cantora Mallu Magalhães a segunda lei da Cibercultura, a liberação do polo de emissão que permitiu que nossa querida cantora expressasse sua obra sem ter que passar pelos rígidos processos de popularização propostos pela indústria musical. Quando iria se imaginar que uma menina daquela idade que ainda fala embolado e morria de vergonha das câmeras ganharia espaço no Top 5? Graças aos avanços da Internet, a Mallu virou emissora do seu próprio conteúdo. Nós viramos emissores. E a ideia de passividade no processo de comunicação caiu por terra, estabelecendo uma relação de interação.

A Conectividade, terceira lei da Cibercultura, dá-se na conexão generalizada, estabelecida nos novos espaços de interação. No caso, o MySpace era um ambiente que reunia diversos tipos de usuários em único ambiente:  conectados entre si, compartilhando e produzindo conteúdo, e interagindo com ele.

Percebe-se que os avanços tecnológicos estarão sempre acompanhados de mudanças sociais. A menina de 15 anos usufruiu bem dos novos comportamentos e das tendências da época. A rede social  MySpace, foi responsável pela  ascensão de vários outros artistas – que também passaram a disponibilizar suas músicas gratuitamente para as pessoas conhecerem e divulgarem, dando origem à chamada “Era do MySpace”. Hoje, relativamente, o YouTube tomou esse lugar. E tem protagonizado a vida desses produtores de conteúdo, agora acompanhados do recurso visual.

É preciso acompanhar e entender as práticas sociais de cada momento. Entender a sociedade é também entender as tecnologias disponíveis e como os usuários se apropriam dela.

Gratidão,  Mallu pelas lindas obras! E que continue cada dia mais velha e louca! 
…você não conhece? Como assim?! Ouça já!


Referência

LEVY, Pierre. Cibercultura.1999

Artigo base: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/r1465-1.pdf

http://www.labeurb.unicamp.br/endici/index.php?r=verbete/view&id=58

Link1: http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL857033-7085,00-FENOMENO+DA+INTERNET+MALLU+MAGALHAES+CRESCE+E+APARECE+NO+MUNDO+REAL.html

Link2: https://www.vagalume.com.br/news/2010/08/04/especial-bandas-reveladas-na-internet.html

Link3:http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/blog/2008/11/24/mallu-magalhaes-mallu-magalhaes/

DadosIBGE: http://www.avellareduarte.com.br/fases-projetos/conceituacao/demandas-do-publico/pesquisas-de-usuarios-atividades-2/internet-no-brasil-2015-dados-e-fontes/internet-no-brasil-2008-dados-e-fontes/


Autora: Izadora

Capa: Eduardo Pagotto

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