Girlboss e a Cauda Longa

Para os grandes fãs de séries, que amam maratonar em feriados, finais de semana e perder horas de sono dizendo a famosa frase “só mais um episódio e aí eu vou dormir”, a Netflix lançou a série Girlboss no dia 21 de abril. A produção é original do streaming e mais voltada para o mundo da moda.

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A série, que é uma releitura bem livre, conta a história de Sophia Amoruso, fundadora da marca de roupas vintage Nasty Gal, originalmente criada no eBay em 2006. Nos treze episódios da temporada, é mostrada a evolução da marca, desde seu comecinho no site de compra e venda até o momento em que Sophia cria uma página na web, própria para sua empresa.

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Sophia, interpretada pela atriz Britt Robertson (que fez filmes como A Primeira Vez, Tomorrowland e a série Under The Dome) é uma grande fã das roupas vintage, principalmente a partir dos anos 80. Mesmo vivendo em 2006, ela gosta e usa esse estilo, incluindo calças boca de sino (o que a gente quase não vê mais em 2017, né?). Por não gostar muito de trabalhar, principalmente de receber ordens, ela passa por alguns problemas com os empregos que tem e, logo no primeiro episódio, nos deixa entender que era demitida de todos os trabalhos que tinha ao invés de se demitir, como gostava de dizer para as pessoas na rua. #falsiane

Sendo uma nova desempregada, Sophia acaba colocando uma jaqueta dos anos 70 para vender no eBay, que já era um site incrível de compra e venda online em 2006 e hoje em dia é o maior site do ramo, e tentar descolar uma graninha. Quando volta a dar uma olhada nos lances da peça, é surpreendida pelo sucesso que conseguiu fazer com uma jaqueta em pouquíssimo tempo. É assim que Sophia começa a olhar a venda online de peças vintage como uma saída mais fácil para seu recém-desemprego.

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Com o passar dos episódios (e do tempo também), as vendas da Nasty Gal no eBay vão dando a Sophia novas clientes e muito dinheiro. Claro que alguns comentários nem sempre são favoráveis à marca, mas a maioria sim e é isso o que anima a protagonista a continuar procurando roupas para customizar e vender online. É o novo ganha pão dela e ela realmente ama isso!

Porém, mesmo esse sendo o novo trabalho favorito de Sophia, algumas outras marcas que também trabalham no eBay com o mesmo produto que ela, acabam tentando sabotar seu sucesso. No caso, essas marcas são altamente conservadoras e não gostam da forma que ela customiza as roupas vintage.

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Clichê ou não, o melhor de tudo acontece no último episódio e Sophia tem uma revelação de que está no caminho certo. A apreensão e a curiosidade são o que mantém o espectador preso até o último segundo e a surpresa da fundadora da Nasty Gal no final é uma receita e tanto para o sucesso.

Mas como Sophia conseguiu bombar tanto assim na internet em 2006, quando a web ainda não era essa ferramenta tão poderosa que é hoje em dia? Como a Nasty Gal conseguiu tanta visibilidade sendo uma loja virtual de roupas vintage e acumulou uma grande quantidade de clientes?

A Teoria da Cauda Longa, de Chris Anderson, é recente (foi criada em 2004) e descreve a estratégia de varejo de se vender uma grande variedade de itens onde cada um vende pequenas quantidades, ao invés de apenas os poucos itens populares que vendem muito.

Como assim, NCD?! #perdida

É assim: a teoria da Cauda Longa se baseia na regra dos 80/20 de Pareto, que sugere que 80% das receitas das empresas são geradas por apenas de 20% de seus produtos. Os supermercados, por exemplo, não conseguem colocar todas as mercadorias nas suas prateleiras por vários motivos (o espaço físico é um deles) e acabam promovendo produtos e suas marcas, como a Coca-Cola, e tornando-os suas mercadorias mais lucrativas e populares. Esses produtos são conhecidos como hits, os artigos que destacam em cada categoria e geralmente. Imagine os cantores mais conhecidos de cada estilo musical, os mais vendidos são os hits, Ivete Sangalo, Beyonce, U2, Rolling Stones, Metallica e assim por diante.

Porém, tudo acabou mudando com a internet mais presente na vida das pessoas. Na web, não é necessário buscar um espaço físico para colocar um CD na prateleira, por exemplo, e os aplicativos como Spotify e iTunes não se preocupam com o custo em colocar alguma nova música na plataforma, pois o custo de armazenagem no ambiente virtual é infinitamente menor que o custo de um espaço físico. Com isso, as músicas e artistas menos populares acabam sendo divulgados com mais facilidade para as pessoas e os nichos acabam concentrando tanto ou mais atenção do que os hits.

Em Girlboss, ao criar a loja Nasty Gal no eBay, Sophia confirma sua entrada em um site que vende de tudo o que puder ser imaginado. E são as três forças da Teoria da Cauda Longa que explicam como ela conseguiu se firmar por tanto tempo nele e ter conquistado tantas clientes rapidamente.

A primeira força é a democratização das ferramentas de produção. Segundo Chris Anderson, hoje em dias os indivíduos têm mais recursos disponíveis para produzir alguma coisa. Por exemplo, imagine o trabalho que uma banda teria para gravar um CD há 30 anos? Ela deveria alugar um estúdio, conseguir técnicos para fazer a edição do material, levar a produção até uma gravadora que colocaria a música num CD físico, produzir várias cópias e distribuir elas em diferentes locais de venda (ufa), para que o consumidor tivesse acesso ao material. Hoje em dia uma banda consegue gravar uma música em casa (um computador e um programa de edição de som dão conta do recado) e disponibilizar a música via internet (sem a necessidade de um cd físico, muito menos uma loja para vender ele). Vide o caso da Mallu Magalhães.

Se Sophia tivesse a ideia de ser uma empreendedora no mundo da moda anos antes da chegada da internet, ela teria que abrir uma empresa, ter contratos e funcionários e todos esses papéis que afirmam e comprovam que ela é proprietária de uma loja.

A segunda força, democratização das forças de distribuição, diz respeito à facilidade de distribuição das criações. Nesse ponto, podemos identificar a internet como uma força aglutinadora (gostaram do termo?), que reuniu diferentes ferramentas, como o cartão de crédito, o rastreamento dos produtos enviados pelo correio, a facilidade de contato com as lojas virtuais e assim por diante. Se Sophia tivesse criado a Nasty Gal anos antes, além de papéis para comprovar que ela é dona de uma empresa, ela teria que divulgar a marca nas revistas e nos jornais e também por panfletos (sabe aqueles que as pessoas te entregam o tempo todo na rua?), porque eram os únicos meios possíveis. Como a internet já estava entre nós (amém) em 2006, Sophia divulga a marca de roupas pela própria ferramenta, já que assim o custo para divulgar a Nasty Gal é menor e atraía mais pessoas.

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A terceira força fala da ligação entre oferta e procura, ou seja, compradores encontram vendedores. São os chamados FILTROS.No caso da Nasty Girl, o eBay teve essa função: ele conectava pessoas que buscavam o estilo de roupa que ela estava vendendo. Com a multiplicação dos produtores, precisamos de uma ferramenta para dividir os produtos de boa qualidade, ou que estejam de acordo com os padrões que estamos buscando. No Spotify você pode reparar que ele funciona assim, dividindo as músicas por estilos, quando elas são parecidas com um artista que estamos ouvindo e assim por diante.

As vendas efetuadas pelo eBay geravam comentários positivos por parte das compradoras (olha o filtro aí, gente!); quanto mais comentários apareciam, mais as pessoas acessavam a loja virtual de Sophia. Com as clientes satisfeitas, a marca era falada com mais frequência entre encontros de amigas, por exemplo, e a Nasty Gal ia ficando mais e mais conhecida.

Nos últimos episódios da temporada, podemos ver Sophia criando a página na web para a Nasty Gal e tendo um grande sucesso assim que o site foi liberado para clientes. A Teoria da Cauda Longa continua sendo explicação para várias marcas importantes e conhecidas; a marca de Sophia não foi exceção.

Infelizmente, a Netflix não divulgou nada sobre uma segunda temporada de Girlboss e, para quem não sabe, a própria Sophia Amoruso escreveu um livro contando a história dela e de sua marca de roupas vintage. Para os curiosos de plantão, a Nasty Gal faliu no final do ano passado, mas isso não impede a rede de streaming de criar uma segunda temporada cheia de confusões amorosas sobre a vida de Sophia e com várias aventuras entre ela e Annie, né?

Por favor, Netflix, a gente nunca te pediu nada!

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